domingo, 18 de setembro de 2016

Análise da expressão "Invasões Bárbaras"

Saque de Roma pelos Vândalos, em 455 d.C. Pintura de Heinrich Leutemann.

Bárbaro, sinônimo de incivilizado, rude e atrasado. Essa expressão, que nos leva à Idade Média, é consagrada no dia a dia, seja por meio da mídia ou, na maioria das vezes, pela herança etimológica que nos foi deixada. Quando se junta a essa palavra outra, invasões, temos um prato cheio para análises. As invasões bárbaras são pontuadas como uma das causas do declínio da parte Ocidental do Império Romano, como bem vemos no ensino básico e, agora, em mais uma série do canal History. Nos foi repassada através de livros didáticos e até mesmo alguns acadêmicos, uma imagem de violentas incursões de povos de vários lugares da Europa em direção ao Império Romano.

No entanto, não foi bem isso que aconteceu, pelo menos em parte. Jerôme Baschet, medievalista francês autor de A Civilização Feudal: do ano mil à colonização da América (2006), uma síntese de História Medieval para os calouros da UNACH (Universidad Autónoma de Chiapas), analisa essa expressão saindo da tradição de ver apenas o poderio militar bárbaro, dando foco para a organização desses povos e desmistificando alguns pontos de suas relações com Roma.

Baschet faz uma dupla crítica a essa expressão. Primeiro, ele analisa a palavra bárbaro, empregada, primeiramente, para designar os não-gregos e, depois, os não-romanos. A palavra ganhou uma conotação negativa, tornando Roma um modelo de civilização e os não-romanos exemplo de atraso técnico e cultural. Ao entrar em contanto com o Império, esses povos ignoraram elementos essenciais para a cultura urbana de Roma, como a prática da escrita, o Direito e a administração estatal. Mas, em contrapartida, esses povos, organizados em torno de um chefe tribal, tinham suas próprias técnicas, como o artesanato e o trabalho com metais, superior ao dos romanos e frequentemente requisitado pelos mesmos.

Invasões recebe a segunda crítica. O termo, quase que de forma automática, nos faz pensar em violentas incursões militares contra o Império. Elas existiram, claro, e foram bastante violentas, mas, paralelo a elas, existiu um lento processo de infiltração, no qual esses povos germânicos iam se instalando, na maioria das vezes, de forma pacífica. Os grupos menores se favoreciam das práticas artesanais e metalúrgicas, e também prestavam serviços ao exército romano. Grupos maiores faziam acordos com o Império e ganhavam deste o estatuto de Povo Federado, uma associação à Roma, na qual o Estado Romano garantia cidadania, subsídios e proteção em troca de contingentes militares.

Quando o Império entrou em colapso e sua estrutura fiscal desabou, os bárbaros souberam se favorecer com esse problema. As antigas cidades romanas e suas elites, que sofriam cada vez mais com o aumento de impostos, ganham dos reis germânicos privilégios fiscais maiores que o normal, fazendo a antiga estrutura fiscal cair de dentro para fora. O desaparecimento da antiga estrutura fiscal tornou o Ocidente um grupo de regiões sem relação entre si e bastante regionalizado. Os reinos germânicos não conseguem restaurar o imposto e controlar suas terras e as elites locais.

As elites locais das antigas cidades do Império tem seu papel no processo de integração dos povos bárbaros. Para manter suas posições, elas se aliam aos líderes germânicos, realizando casamentos, fundindo linhagens romanas e bárbaras. Os dois lados saem ganhando: os bárbaros, aos poucos, iam se integrando à sociedade romana, muitas vezes ascendendo como membros da aristocracia; enquanto que as antigas elites romanas se militarizaram, protegeram suas posições e passaram a controlar cada vez mais as cidades.

No campo jurídico são misturados elementos do Direito Romano e costumes de origem germânica, caracterizando a ausência de um poder real que possa ser aplicado. O poder do rei germânico emana de sua relação de fidelidade com sua corte, onde seus membros são recompensados com proteção e concessões públicas, numa prática de paternalismo que confunde o público com o privado. Com a ausência de uma estrutura fiscal que garanta o controle das regiões e suas elites; de uma codificação jurídica organizada, Baschet conclui que é impossível considerar estados os reinos germânicos da Alta Idade Média.

Portanto, as Invasões Bárbaras não devem ser vistas ou imaginadas apenas como ações violentas dos povos germânicos, mas também como um processo de infiltração lento, com duração de vários séculos, no qual os líderes dessas tribos souberam se aproveitar das fraquezas internas do Império Romano e se integrar a essa realidade. A fronteira, em certa medida, perde seu caráter de divisão e se torna o lugar das trocas comerciais e culturais, onde são mesclados elementos romanos e germânicos, dando luz a uma nova realidade na Europa, a realidade romano-germânica.


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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A Elevação do Amazonas à categoria de Província

Monumento dedicado a Tenreiro Aranha, na Praça da Saudade. 2013, acervo da ManausCult.

Versão resumida do texto 5 de Setembro: Elevação do Amazonas à categoria de Província, publicado em 2013.

A Elevação do Amazonas à categoria de Província é o resultado de um processo que começou quase três décadas antes do acontecido. O Amazonas tinha o anseio, desde os tempos coloniais, quando era a Capitania de São José do Rio Negro, de uma posição de maior destaque no cenário nacional, desejo esse que sempre encontrava barreiras na administração do Grão-Pará. O Pará aderiu à Independência do Brasil em 15 de agosto de 1823. A notícia chegou à Capitania do Rio Negro três meses depois, em 9 de novembro, sendo jurada fidelidade a D. Pedro I no dia 22. Uma junta governativa administraria o Rio Negro até 1825, quando este foi incorporado ao Grão-Pará na condição de Comarca.

A lealdade ao Império não mudou a condição do Amazonas, agora na condição de Comarca de segunda categoria e ainda sufocado pela subordinação à província vizinha. Descontentes, diferentes camadas sociais da Comarca mostraram resistência à situação política, se rebelando e criando, em 1832, a Província do Rio Negro. Forças militares vindas de Belém deram um fim a essa iniciativa, que teve pouco mais de quatro meses de existência.

Voltando ao Pará, emergia o revolucionário Movimento Cabano, encabeçado por camadas populares da sociedade paraense, formada por mestiços, negros e índios, que viviam de forma marginalizada e, agora, pegavam em armas por melhores condições de vida, melhores governos locais e maior visibilidade nacional. De 1835 à 1840, os cabanos conseguiram depor governadores e instalar governos revolucionários no Pará, expandindo o movimento por toda a Amazônia, chegando à Manaus, Maués, Autazes, Barcelos, Moura, Serpa e outras localidades nos rios Madeira e Tapajós. O movimento resistiu até 1840, quando começou a se enfraquecer, seja pela traição de alguns membros, seja pela força esmagadora da Regência. Como saldo, os combates causaram a morte de 30.000 à 40.000 mil pessoas, cabanos e militares do Império; deixaram a produção econômica arruinada e, praticamente, não trouxe mudanças significativas contra a marginalização das camadas que se revoltaram.

Desde a década de 20 do século XIX que autoridades amazonenses faziam pedidos ao Império para se emancipar do controle paraense. Em 1826, D. Romualdo Antônio Seixas, deputado no Pará, argumentou na Assembleia Nacional que a Província do Pará, dada sua grandiosa extensão, não conseguiria dar atenção a essa Comarca, necessitando, assim, a sua transformação em unidade política independente. Rebatendo os argumentos de Romualdo, políticos favoráveis ao Pará diziam que a Comarca tinha uma população diminuta, mão de obra desqualificada, capital e produção insuficientes. Foram necessários fatores externos para que a criação de uma nova unidade política no Império do Brasil se concretizasse.

Estados Unidos e Inglaterra, as duas principais potências industriais do século XIX, passaram a pressionar o Brasil em relação à soberania e liberdade de atuação na região amazônica, rica em seringueiras, de onde vinha o látex para a fabricação da borracha, agora tão necessária à produção industrial estrangeira. Para evitar qualquer ameaça estrangeira e confirmar a soberania sob uma região distante e tão vasta, mas que, futuramente, seria o centro de um dos mais importantes ciclos econômicos do país, o da borracha, o Império acelerou o processo de criação da tão esperada Província do Amazonas.

Pela Lei N° 582, de 5 de setembro de 1850, criada pelo deputado João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha, paraense já conhecido por pedidos anteriores de emancipação, levada ao Imperador D. Pedro II para aprovação, pelo primeiro ministro José da Costa Carvalho, Marquês de Monte Alegre, a Comarca do Alto Amazonas é elevada à categoria de Província, conseguindo se emancipar do Pará depois de quase um século. Sua capital seria Nossa Senhora da Conceição da Barra do Rio Negro, a cidade de Manaus. Seus limites e extensão seriam os mesmos da antiga Capitania, “com a Capitania de Mato Grosso, ao sul, através da Cachoeira de Nhamundá até sua foz no Amazonas e deste pelo outeiro do Maracá-Açu, ficando para o Rio Negro a margem ocidental do Nhamundá e do outeiro” (1). A província daria um senador e um deputado à Assembleia Geral, e a sua Assembleia Legislativa teria 20 membros. Seu primeiro presidente foi João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha, nomeado em 7 de junho de 1851. A província foi instalada de fato em 1° de janeiro de 1852, após a posse do presidente, dos cinco vice-presidentes e dos novos funcionários.

A criação da Província do Amazonas, um sonho antigo dos tempos da Capitania, representou a autonomia dos amazonenses, que agora poderiam crescer sem depender do controle autoritário do governo paraense e suas elites; e a garantia da soberania do Império Brasileiro em terras distantes e quase esquecidas, mas tão cobiçadas por outras nações. Em poucas décadas, parafraseando o historiador Antônio Loureiro, a produção da borracha amazônica garantiria ao Brasil a arrecadação de rendas necessárias para o pagamento de sua dívida externa, o equilíbrio da balança comercial e a estruturação Centro-Sul e a obtenção das libras esterlinas, a moeda dominante na época.

NOTA:

(1) REIS, Arthur Cézar Ferreira. História do Amazonas. 2° ed. Belo Horizonte: Itatiaia; Manaus, Superintendência Cultural do Amazonas, 1989. - (Coleção reconquista do Brasil. 2° série; v. 45). p. 121.

FONTES:

SOUZA, Márcio. História da Amazônia. Manaus, Editora Valer, 2009.

LOUREIRO, Antônio José Souto. O Amazonas na Época Imperial. Manaus: T. Loureiro & Cia, 1989.

FIGUEIREDO, Aguinaldo Nascimento. História do Amazonas. Manaus: Editora Valer, 2011.

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ManausCult

sábado, 3 de setembro de 2016

Império Carolíngio: Renascimento e ascensão da Igreja (I)

Coroação de Pepino III como rei dos Francos e Patrício dos romanos na Basílica de Saint-Denis, em 754.

No campo da História, associamos a palavra 'Renascimento' aos séculos XV e XVI, quando homens letrados da Europa Moderna passaram a tomar a Antiguidade Clássica greco-romana como referência para suas produções intelectuais. No entanto, a idealização de retornar à Antiguidade começou a tomar forma no final do século VIII, durante a Alta Idade Média e a criação do Império Carolíngio. É também o momento de reforma da liturgia católica e da ascensão da Igreja como elemento dominante no Ocidente.

Os carolíngios ou a Dinastia Carolíngia, tem origem em uma família da aristocracia franca. Carlos Martel, vice-rei dos francos e filho ilegítimo de Pepino de Herstal (635-714), ganha prestígio militar ao vencer os árabes em 732, na Batalha de Poitiers, e continua o projeto de reunificação iniciado por seu pai no século VII. Pepino III ou Pepino, o Breve, filho de Martel, deu continuidade à unificação militar e, em 751, com ajuda da nobreza franca, tomou o trono de Childerico III, último rei franco da Dinastia Merovíngia.

Encabeçando um projeto de poder ambicioso, Pepino faz uma aliança com o Bispo de Roma, que procurava no monarca franco apoio militar contra os lombardos que ameaçavam invadir a cidade. Firmada a união, o pontífice renova a coroação do rei e o unge à maneira dos reis do Antigo Testamento, garantindo a Pepino uma espécie de "aura sagrada" que legitimava suas ações. O sucesso carolíngio viria, no entanto, com o filho de Pepino, Carlos Magno, que assume o trono em 768 e governa até o ano de sua morte, em 814.

Carlos Magno foi um dos maiores militares e estadistas da Europa Medieval. Sua primeira conquista militar foi na Itália, onde venceu os lombardos. Depois, investe 32 anos de seu reinado em uma luta contra os saxões, que se mostram resistentes à conversão ao Cristianismo. Vencidos os inimigos, a Germânia é incorporada ao reino. Na Polônia e na Hungria combate os eslavos, ficando na defensiva contra os avaros. Ele também avança ao Sul dos Pirineus, região controlada pelos bascos, para estabelecer uma espécie de fronteira protetora contra os árabes.

Em meio a essas conquistas, Carlos consegue reunificar uma boa parte do que no passado constituía o Império Romano do Ocidente: Gália, Itália do Norte e central e Renânia. A construção de seu palácio, em Aix-la-Chapelle, localizado no Norte da Europa, onde hoje é a Alemanha, em 796, evidencia que o poder já não emanava mais do Centro europeu desde a queda do Império Romano. Sua coroação ocorre no Natal de 800, em Roma, sob os dizeres: "A Carlos, Augusto, coroado por Deus, grande e pacífico imperador dos romanos, vida e vitória" (1) e se deus pelas mãos do Papa, estando assegurada, dessa forma, a aliança iniciada em 751 e, para o pontífice, o controle de um monarca que se distanciou de Roma.

Imperador Carlos Magno. Pintura de Albrecht Dürer, 1512.

No Oriente, onde estava localizado o Império Romano do Oriente, que se considerava o verdadeiro herdeiro daquele que ruiu em 476, via seu poder declinar em relação ao reino que Carlos Magno ia estabelecendo nas antigas terras romanas. Contribuía para essa fraqueza a crise religiosa pela qual passava o império e as constantes investidas árabes. O papado era juridicamente dependente do imperador oriental, que confirmava a posse do Papa após a eleição. Mas, a partir do momento em que um rei é coroado em Roma, o Papa deixa de responder ao Império do Oriente e passa a exercer, no Ocidente, um poder que se tornará cada vez mais forte. O Bispo de Roma consagra o poder dos reis carolíngios e recebe destes bens materiais e territoriais. Essa aliança, Império e Igreja, permite o crescimento sistemático e em conjunto dessas duas principais forças da Europa nos séculos VIII e IX da Idade Média.

O imperador é responsável por nomear bispos e abades, e conta com uma rede de 180 igrejas-catedrais e 700 monastérios, bases de seu poder. Os clérigos o auxiliam na administração imperial e na erudição. A Igreja garante a "sacralidade" do Império e diviniza as ações do imperador, recebendo deste proteção, imunidade fiscal e doações territoriais e materiais. O momento mais importante no assentamento da Igreja, antes do rompimento com o Império do Oriente, se deu em 756, quando Pepino III fundou os Estados Papais, formados pelo Patrimônio de São Pedro, território que atravessa a Itália Central, de Roma a Ravena, legitimado pela Doação de Constantino, um documento forjado que continha o registro de uma doação de terras de Constantino para a Igreja no século IV.

A Igreja, sem dúvida, foi um dos pilares mais sólidos do Império Carolíngio, mas não foi o único. O exército, que garantia as conquistas territoriais, foi outro elemento fundamental para o crescimento carolíngio. No mês de maio de cada ano, o imperador convocava homens livres para o combate. Conseguia-se, em um ano, a formação de um exército de 40.000 soldados. No entanto, ele deixa de exigir que todos se alistem, pois as armaduras, espadas e outros materiais bélicos eram muito caros.

Administrativamente o Império era mal organizado, estando este dividido em 300 pagi, províncias sobre o controle de condes; e as fronteiras são protegidas por duques e marqueses. Mas, quem de fato exerce poder em uma província são as aristocracias locais ou guerreiros, recompensados pelo imperador com possessões territoriais. As aristocracias e os militares de alta patente estão subordinados ao imperador por meio de uma relação de fidelidade e na garantia das honrarias que o monarca pode conferir. Percebe-se que o poder, nesse aspecto, é fragmentado.

Mesmo mal organizado administrativamente, a unidade garantida pelos francos traz importantes avanços. As zonas rurais desenvolvem-se, as populações crescem entre os séculos VIII e IX e o comércio de grande quantidade ressurge. No entanto, esses avanços são frutos de ações exteriores: "no Sul, os muçulmanos, que ainda abastecem de produtos orientais as cortes principescas o imperiais; no Norte, os navegadores escandinavos, que importam madeiras, peles e armas" (2). Por mais que estas sejam ações externas, elas fazem o Império reorganizar seu sistema monetário. Carlos Magno abandona a cunhagem do ouro e impõe a cunhagem em prata, material mais abundante que o ouro e mais próximo do valor das trocas. A libra de prata é fixada em 491 gramas, mais da metade do que era na Antiguidade, dividida em vinte soldos de doze denários cada, e se torna a base monetária de toda a Idade Média.
 

NOTAS:

(1) Idade Média I. In: Grande História Universal Vol I. Rio de Janeiro: Bloch Editores, 1976, p. 229.

(2) O Renascimento Carolíngio (séculos VIII e IX). In: BASCHET, Jérôme. A civilização feudal: Do ano mil à colonização da América. Tradução de Marcelo Rede. São Paulo: Editora Globo, p. 73.


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terça-feira, 9 de agosto de 2016

O processo de conversão da Europa ao Cristianismo

Para falarmos do início da caminhada do Cristianismo na Idade Média, precisamos voltar um pouco ao passado, mais precisamente entre o início e o final do século IV. Nesse período, duas datas são importantes para que essa religião originária do judaísmo ganhe o status de que desfrutará séculos depois: O ano de 312, quando o imperador Constantino se converte, por razões políticas, ao cristianismo, e cessa as perseguições contra os praticantes desse culto; e 392, quando o imperador Teodósio torna o paganismo ilegal e transforma o cristianismo em única religião praticável no Império.

Paz e legalidade. O Cristianismo tinha, agora, um terreno favorável para se expandir pelo Império e outras áreas fronteiriças. Aproveitando-se das antigas estruturas imperiais, a Igreja vai se consolidando como um elemento de força local, por meio das dioceses, antiga unidade administrativa de uma cidade ou uma província governada pelo legatus. As dioceses, que possuem o aval do imperador para funcionar, são governadas pelo bispo, que tem em sua mão uma grande extensão urbana e rural. Em regiões que foram romanizadas no passado, como a Itália e a Gália do Sul, surgem redes densas de pequenas dioceses. Ao Norte, onde a malha urbana era mais antiga, as dioceses são menos numerosas e mais extensas.

Cristo retratado como um imperador, usando vestes militares. Mosaico em Ravena.

Politicamente e ideologicamente, os imperadores romanos passam a se favorecer com o novo culto, associando suas imagens com a de Jesus Cristo, igual como ocorria no culto pagão, com uma divindade principal do panteão. Dessa época, existe uma rica iconografia que atesta essa associação.

O Império já não é mais uma ameaça para os cristãos. Porém, surge um novo inimigo: os povos germânicos que começam a atravessar as fronteiras são, em sua maioria, pagãos. Mesmo os que já estavam convertidos representavam uma ameaça, como os Visigodos, ostrogodos e vândalos, seguidores do Cristianismo Ariano, considerado uma heresia pela população e pelo clero dos locais onde se instalavam. Clóvis, que unificou o povo franco sob um reino, converteu-se ao catolicismo em 508, recebendo, com isso, apoio dos bispos em suas campanhas militares contra os visigodos arianos. Recaredo, rei da Espanha visigótica, se converte ao catolicismo em 587.

São Patrício, missionário e padroeiro da Irlanda.

O paganismo perdura por um bom tempo no Noroeste da Europa. No século V foi realizada uma missão para evangelizar a ilha Irlanda. Mesmo penetrando a região nesse século, o Cristianismo só se tornará a religião oficial da ilha no final do século VI. No continente, o passado pré-cristão dá lugar a uma mistura original entre uma cultura romano-cristã (externa) e a uma cultura celta (local).

Pagão ganha o sentido que conhecemos nos dias de hoje. Mas, ainda sim, de acordo com os escritos Orósio, ele é o homem do campo. O paganismo é considerado um culto rural atrasado, visto com desprezo pelos homens da cidade. Para os cristãos, os deuses antigos existem, mas não são divindades, e sim demônios que precisam ser caçados. Essa associação marcará a propagação da nova religião contra o paganismo. O batismo funciona como uma das formas para renegar satã e expulsar essa forças diabólicas. O exorcismo é praticado em larga escala pelos clérigos. Soma-se a essas práticas a destruição de antigos templos politeístas.

É necessária a dessacralização da natureza e a valorização do elemento humano. O culto dos santos cumpre a função de substituir os antigos elementos pagãos presentes na natureza. O culto dos santos se mostra uma arma poderosa na luta contra o paganismo, pois torna o processo de conversão mais maleável, dessacralizando antigos símbolos pagãos e substituindo-os por imagens cristãs. São frequentes as iconografias de santos abatendo bestas.

O processo de conversão ocorre de forma lenta nos reinos anglo-saxões. A primeira missão evangelizadora foi enviada à região em 597, por ordens de Gregório, o Grande. O rei de Kent, Etelberto, assim como milhares de anglos, é batizado. O rei assemelha o momento à figura de Constantino, que se converte após receber um sinal de Deus na Batalha da Ponte Mílvia. O desafio da missão é encontrando em Edwin, rei de Northumbria, que se converte apenas em 628. Em 632, ano de sua morte, o Cristianismo entra em ruína em seu reino. Na História eclesiástica do povo inglês, de 731, o Venerável Beda relata que o processo de conversão da Bretanha insular foi concluído, ou seja, dois séculos após o início do processo.

O Batismo da Polônia, de Jan Matejko.

O avanço do Cristianismo no Norte é ainda mais lento. Vilibrodo, no fim do século VII, inicia a conversão dos frisões situados no Norte da Gália, consolidando uma zona fronteiriça para os soberanos francos. Bonifácio, com apoio dos reis francos e do pontífice romano, é enviado como bispo missionário das igrejas da Germânia, favorecendo-se das campanhas militares dos francos contra os saxões do Leste, pagãos. Consegue estabelecer a religião na Bavária e na renana, onde funda o monastério de Fulda. As conquistas de Carlos Magno vão assegurar de fato a conversão dos saxões.

O Cristianismo triunfa na Europa no século X, quando são convertidas as últimas regiões com focos de cultos pagãos. A Polônia é convertida em 966; o rei Estevão I, da Hungria, é batizado em 985; Haroldo Dente Azul, da Dinamarca, é batizado em 960; Olavo Tryggveson da Noruega em 995, e Olavo da Suécia em 1008. Por um referendo popular, a Islândia se converte no ano 1000.


FONTE:

BASCHET, Jérôme. A Civilização Feudal: Do ano mil à colonização da América. São Paulo: Globo Editora, 2006.


CRÉDITO DAS IMAGENS:

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thehistoryofthebyzantineempire.com
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sábado, 6 de agosto de 2016

Resenha: Narradores de Javé (2004)



Lançamento: 2004
Direção: Eliane Caffé
País: Brasil


O Filme Narradores de Javé (2004), guardadas as devidas proporções, nos lembra do método histórico, do longo caminho que o historiador trilha até dar corpo à sua pesquisa. Num primeiro momento, o escrivão Antônio Biá, nosso “historiador”, já possui um tema definido para sua pesquisa: a história do povoado de Javé. Definido o tema, a próxima etapa de Antônio é verificar se existem fontes disponíveis para a realização de seu trabalho. Em um povoado onde estão ausentes qualquer forma de documentos ou outros registros escritos, serão as histórias dos moradores, seus relatos, as principais fontes de informação.

Outro elemento importante é o fato de que o historiador não é um ser neutro, e que os documentos, sejam eles materiais ou imateriais (as histórias dos moradores) também não são. Ao receber as primeiras histórias, Biá fica insatisfeito com a “importância” de algumas, e sugere algumas alterações para engrandecê-las. Os moradores que dão suas versões da fundação da cidade se mostram orgulhosos com elas. Nos são apresentadas três versões vindas de três lugares sociais diferentes: O primeiro vem de um descendente do fundador, homem destemido, de Javé; O segundo, também de um descendente, a moradora Mariardina, conta que a fundação se deu pelas mãos da heroína Maria Dina; O último vem de um narrador negro, descendente de escravos, e cujo fundador é Indaleô.

Esses registros nos lembram que, até em um diminuto povoado fictício como Javé, existem verdadeiras “guerras da história”, um conflito simbólico entre as diferentes versões que serão legitimadas para a contar a fundação da cidade. As versões de um homem; de uma mulher e de um descendente de escravos. Conflitantes em gênero e classe social.

Depois de reunidas as fontes, o historiador deve assegurar a confiabilidade destas. Esse é um ponto interessante do filme: Biá, assim como os demais moradores, ficam cientes que os funcionários da represa pediram uma história “científica”, e fica em dúvida se as histórias destes, para ele fantasiosas, estão enquadradas nesse quesito. Vemos que o conceito de fonte histórica se alargou com o tempo, estando incluídos, desde o início do século XX, a oralidade, as manifestações culturais e religiosas e outros elementos não necessariamente escritos. Mas ainda são muitos aqueles que produzem história exclusivamente com registros escritos em arquivos públicos ou particulares.

A última etapa do processo histórico é a redação. Antônio Biá, funcionário de uma filial dos correios, é o único habitante de Javé que possui um certo domínio da escrita. Esse diferencial de Biá nos remete ao conceito básico de Historiografia, a escrita da história. Ele, por dominar a escrita, é o único elemento apto a registrar a história do povoado. Assim, nos parece que os únicos registram a história, que a possuem, são aqueles que escrevem. Mas, emprestando alguns dizeres de Carbonnel (1992, p. 7), devemos estar cientes que nenhum grupo é amnésico. Para qualquer grupo recordar-se é existir; perder a memória é desaparecer”. Isso fica claro quando alguns moradores dão depoimentos para um funcionário que os está filmando: “Aqui estão enterrados meus antepassados, meus filhos que já morreram”. A História não é uma exclusividade das sociedades letradas, ela apenas assume outras formas dependendo dos mecanismos encontrados por outras culturas (iletradas) para sua preservação.

Biá, com inúmeras dificuldades para realizar sua pesquisa, escolher qual história deve ser registrada, termina entregando um livro em branco, sem a tão esperado história de Javé. Essa desistência nos faz lembrar da dificuldade do trabalho do historiador, pois todos os elementos do processo histórico, num primeiro momento, são desafios para o profissional da história. O “progresso” chega, inundando o povoado.

Zaqueu, antigo morador do povoado e narrador do filme, vem nos apresentando o drama de Javé desde a notícia da construção da represa até o momento fatídico de sua destruição. Percebemos, então, que a história de Javé, mesmo com o seu desaparecimento, continua existindo, não em forma escrita, mas como sempre foi desde seus primórdios, de forma oral, circulando entre seus habitantes e, agora, ex-habitantes.

Por último, vamos nos lembrar do título do filme: Narradores de Javé. O filme é isso, uma gama de narrativas, de opressores e oprimidos. Uma luta para reunir essas histórias em um livro, de dar importância a um lugar praticamente esquecido no tempo, mas que luta para continuar existindo à sua própria maneira. Os relatos desses moradores podem não ser considerados a “versão oficial”, mas são as versões particulares de uma sociedade construída sob suas próprias concepções e vivências.


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quinta-feira, 28 de julho de 2016

Análise reflexiva sobre a pintura O Historiador (1902), de Irving Couse

O Historiador (1902), pintura do americano Eanger Irving Couse.

No presente texto farei a análise de uma pintura, relacionando seus elementos com o conhecimento adquirido durante as aulas de Historiografia Geral I e II, ministradas pelo professor Auxiliomar, da Universidade Federal do Amazonas, com foco na reflexão sobre as formas que diferentes sociedades criaram para registrar e transmitir suas histórias.

O Historiador (1902) é uma pintura do americano Eanger Irving Couse (1866-1936), famoso por produzir quadros retratando índios norte-americanos do Novo México e do Sudoeste do país. Essa pintura me chamou atenção não apenas pelo título e pelos elementos nela representados, mas em especial por me fazer relembrar das primeiras aulas da disciplina Historiografia Geral, ministrada pelo mestre Auxiliomar Silva Ugarte.

No trabalho de Irving temos retratados dois indígenas, um adulto e outro jovem. Não consegui identificar a qual etnia pertencem, mas podem ser Taos ou Pueblo, os mais registrados pelo autor. O primeiro está registrando, por meio de desenhos feitos no que parece ser um pedaço de couro, a história de uma batalha de sua tribo contra soldados americanos. São identificáveis as figuras de um cavalo, alguns soldados em posição de ataque e outros mortos, nativos na mesma situação, flechas e balas. O jovem parece observar com atenção esse processo e, em uma leitura simbólica, será a próxima geração encarregada de registrar novos acontecimentos e relembrar os que lhe foram transmitidos.

Historiografia (história+grafia), em uma definição bem básica, é a escrita da história. Desde as épocas mais remotas as sociedades desenvolveram formas de registrar suas ações no espaço e no tempo. Como exemplos, podemos citar o grego Heródoto, que escreve história [..] para que nem os feitos dos homens, com o tempo, se reduzam ao esquecimento, nem as obras grandes e admiráveis - tanto as realizadas pelos gregos quanto as realizadas pelos bárbaros - fiquem sem glória e as demais coisas por causa das quais foi o motivo de guerrearem uns com os outros" 1; e os primeiros autores cristãos, que viam na escrita uma forma de preservar os ensinamentos de Jesus Cristo e defender a sua fé (apologia).

Ambos, cronologicamente separados por alguns séculos, tinham suas próprias visões de mundo. Eduardo Natalino dos Santos, citando Alfredo López Austin, define visão de mundo como […] “um conjunto articulado de sistemas ideológicos, relacionados entre si em forma relativamente congruente, com a qual um indivíduo ou grupo social, em um momento histórico, pretende apreender o universo”2. Esses homens, gregos ou cristãos medievais, registravam o momento que viviam, baseados em seus anseios pessoais ou coletivos (o encadeamento cíclico dos fatos, para os gregos; e o eminente apocalipse, para os cristãos) . Eram produtos de sua própria época. A historiografia está em constante produção, sendo alterada diariamente, seja pelas transformações sociais, teóricas ou metodológicas.

apresentada uma breve noção do que é historiografia, podemos voltar ao quadro. Vemos que ela é a escrita da história. Nesse sentido, têm-se a ideia de que as únicas sociedades que possuem história são aquelas com domínio da escrita. Como fica, então, o nosso historiador da pintura, visto que ele é um indígena e está utilizando como registro pinturas rústicas, uma técnica comum nas sociedades primitivas? De fato, ela não está produzindo uma historiografia tradicional, um registro escrito, mas isso não quer dizer que ele não tenha noção de seu passado. O historiador francês Charles-Olivier Carbonell, no contexto das reformulações feitas pela Escola dos Annales, afirma que

[…] “nenhum grupo é amnésico. Para qualquer grupo recordar-se é existir; perder a memória é desaparecer. Não ultrapassou o homem a animalidade quando com o auxílio das palavras conseguiu acrescentar a uma memória instintiva, programada mesquinhamente para a ilusória eternidade da espécie, a memória cultural única capaz de exorcizar a morte e fundar a hereditariedade dos saberes?”3.

Auxílio das palavras, memória cultural e hereditariedade dos saberes. Emprestando essas palavras de Carbonell, podemos compreender como o indígena retratado na pintura produz história: Ele, à sua maneira, registra por meio de desenhos um fato que marcou seu povo (a guerra contra os americanos). Aliado a isso têm a oralidade, uma poderosa arma na transmissão e preservação de conhecimento para as próximas gerações. Os desenhos, os relatos, expressarão sua visão de mundo no momento da produção, trarão discursos visíveis e outros nem tanto. Não será considerada a versão 'oficial' de um fato, mas é a versão particular de uma sociedade construída sob suas próprias concepções e vivências.

Portanto, a pintura O Historiador e os elementos nela representados nos lembram de dois pontos importantes para o conhecimento histórico no campo da Nova História: primeiro, com a ausência de documentos escritos, o historiador pode e deve recorrer a outros tipos de fontes, como manifestações culturais, a oralidade, os mitos, as lendas, as ruínas antigas, as poesias e as palavras. O bom historiador vê possibilidades de trabalho em uma paisagem, no caminhar de uma pessoa, nos diálogos do cotidiano. Por último, a construção de uma narrativa histórica não é exclusiva das sociedades letradas, pois as culturas mais primitivas desenvolveram outras técnicas de representar suas percepções de mundo.


NOTAS:

1SOUSA, Paulo Ângelo de Meneses. Memória histórica e narrativa em Heródoto. Revista Humanitas, UFPI, 2009, P. 84.

2SANTOS, Eduardo Natalino dos. Tempo, Espaço e Passado na Mesoamérica. São Paulo, Alameda, 2009, p. 45.


3CARBONELL, Charles-Olivier. Historiografia. Lisboa, Teorema, tradução de Pedro Jordão, 1992, p. 7.


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terça-feira, 19 de julho de 2016

Prefácio dos Estudos Históricos de René Chateaubriand (III)

François-René de Chateaubriand. Pintura de Anne-Louis Girodet de Roussy-Trioson.

Terceira e última parte da série de postagens Prefácio dos Estudos Históricos de René Chateaubriand, no qual o autor romântico discorre sobre os temas Escola Histórica da Alemanha, Filosofia da história e a história na Inglaterra e na Itália.

Escola Histórica da Alemanha. Filosofia da história. A história na Inglaterra e na Itália

Próximos a nós, enquanto fundávamos nossa escola política, a Alemanha estabelecia suas novas doutrinas e nos ultrapassava nas altas regiões da inteligência: ela fazia entra a filosofia na história, não essa filosofia do século XVIII, que consistia em lavrar sentenças morais ou antirreligiosas, mas essa filosofia que procura a essência dos seres; que, penetrando o envelope do mundo sensível, procura se não há ali sob esse envelope alguma coisa mais real, mais viva, causa dos fenômenos sociais.

Descobrir as leis que regem a espécie humana; tomar por base de operações as três ou quatro tradições disseminadas entre todos os povos da Terra; reconstruir a sociedade sobre essas tradições, da mesma maneira que se restaura um monumento a partir de suas ruínas, seguir o desenvolvimento das ideias e das instituições nessa sociedade; assinalar suas transformações, indagar à história se não existe na humanidade algum movimento natural, o qual, manifestando-se em épocas fixas nas posições dadas, pode fazer predizer o retorno desta ou daquela revolução, como se anuncia a reaparição dos cometas cujas curvas foram calculadas: esses são interesses imensos. Quem é o homem? De onde vem? Para onde vai? Que veio fazer aqui? Quais são seus destinos? Os arquivos do mundo forneceriam respostas para essas questões? Existe em cada origem nacional uma idade religiosa? Dessa época passa-se para uma época heroica? Dessa época heroica a uma época social? Dessa época social a uma época propriamente humana? Dessa época humana a uma época filosófica? Existe um Homero que canta em todos os países, em diferentes línguas, no berço de todos os povos? A Alemanha se divide sobre tais questões em dois partidos: o partido filosófico e o partido histórico.

O partido filosófico-histórico, à cabeça do qual se coloca Hegel, pretende que a alma universal se manifesta na humanidade por quatro modos: um substantivo, idêntico, imóvel, é encontrado no Oriente; outro individual, variado, ativo, encontra-se na Grécia; o terceiro se compõe do dois primeiros numa luta perpétua e existiu em Roma; o quarto sai da luta do terceiro para harmonizar o que estava diverso: existe nas nações de origem germânica.

Assim o Oriente, a Grécia, Roma, a Germânia oferecem as quatro formas e os quatro princípios históricos da sociedade. Cada grande massa de povos, colocados nessas categorias geográficas, tira de suas posições diversas a natureza de seu gênio, o caráter de suas leis, o gênero de eventos de sua vida social.

O partido histórico se atém somente aos fatos e rejeita toda fórmula filosófica. Niebuhr, seu ilustre chefe, cuja perda recente foi deplorada pelo mundo letrado, compôs a história romana que precedeu Roma; mas não reconstruiu seu monumento ciclópico em torno de uma ideia. Savigny, que seguiu a história do direito romano desde sua época poética até a época filosófica à qual chegamos, não procura mais o princípio abstrato que parece ter dado a esse direito uma espécie de eternidade.

A escola filosófico-histórica de nossos vizinhos procede, como se vê, pela síntese, e a escola puramente histórica, pela análise. Estes são os dois métodos naturalmente aplicáveis à ideia e à forma. A escola histórica diz que o fato coloca em movimento o espírito humano: esta última escola reconhece ainda um encadeamento providencial na ordem dos eventos. Essas duas escolas tomam na Alemanha o nome de sistema racional e sistema supranatural.

Afinadas com as duas escolas históricas, marcham duas escolas teológicas que se unem às duas primeiras segundo duas diversas afinidades. Essas escolas teológicas são cristãs; mas uma faz sair o cristianismo da razão pura; a outra, da revelação. Nesse país onde tantos altos estudos são levados tão longe, não ocorre a ninguém que a falta da ideia cristã na sociedade seja uma prova dos progressos da civilização. [...]


FONTE GERAL DA SÉRIE DE POSTAGENS:

MALATIAN, Teresa. Chateaubriand. In: MALERBA, Jurandir. Lições de história: o caminho da ciência no longo século XIX. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010. pp 113-131.

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