domingo, 20 de agosto de 2017

Patrimônios Históricos: Ensino, pesquisa, teorias e metodologias

O presente texto foi produzido pelo autor convidado Marcos Vinicius Alvarenga¹, acadêmico de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Em Patrimônios Históricos: Ensino, pesquisa, teorias e metodologias, Marcos procura problematizar, através de uma ampla discussão, a noção de patrimônio histórico, discussão essa relacionada aos sujeitos históricos, aos lugares de fala e aos discursos que foram e continuam sendo fabricados.

Marcos Vinicius Alvarenga

Cotidiano da Comunidade Quilombola do Alto da Serra, no Distrito de Lídice, no município de Rio Claro, região do Médio Paraíba do Rio de Janeiro. Foto de 2015.

Há um questionamento importante a ser feito: “Por que conhecemos o inventor da lâmpada, mas não conhecemos o inventor da canoa? ” Estamos diante de uma ferramenta extremamente sofisticada, capaz de manter um pescador e o fruto de seu labor ao longo do curso de rios caudalosos em demasia como os da bacia do Amazonas sem que o primeiro, seu condutor, se afogue!
Vamos levar a discussão um pouco mais adiante com outro exemplo: “Por que consideramos tão facilmente as casas brancas presentes nas elevações das ilhas gregas do Mediterrâneo como ‘patrimônio’, mas não o fazemos para com os cortiços ou as casas da comunidade do Vidigal, no Rio de Janeiro?” Ora, se pintarmos as da última localização e tirarmos uma foto poderia até ser confundido um espaço com o outro! E, para encerrar a sessão de perguntas, faço uma terceira “Por que as vestes de um monarca europeu são cuidadosamente preservadas, ao passo em que as de um escravo de origem africana do século XIX não?”
O objetivo deste artigo é problematizar em cima destas indagações, evocando uma discussão mais ampla acerca do que são patrimônios históricos, com base em exemplos fornecidos por outros escritos, como o magnífico trabalho do professor Gerson Rodrigues de Albuquerque, os “Trabalhadores do Muro, o rio das cigarras”, que estabeleceu um perfeito diálogo com suas fontes; mais do que fontes, Gerson deu voz a sujeitos! Sujeitos em meio a suas vivências, agentes ativos de sua própria história e não marionetes de um teatro estruturalista em que são submissos aos seus dominantes.
Gerson não fez uso de um monólogo do historiador 100% objetivo, o cientista que conta as coisas “Tal como aconteceu”, e o “narrador”, mas estabeleceu um verdadeiro diálogo mútuo. Marcos Silva, ao tratar-se do primeiro caso, afirma: “Narrações orais e outros itens de patrimônio histórico, quando assim tratados, são metamorfoseados em cadáveres dissecados pelo analista, sem se estabelecer um diálogo entre as partes, que poderia ser esclarecedor para ambas. “ (SILVA, p 42)
Cabe a nós, com nossos trabalhos de PIBIC, nossas monografias e futuramente, nossos trabalhos de mestrado e doutorado, dar voz aos mais diversos sujeitos (que também constituem um patrimônio!). Por que não fazer uma história das crianças que moram na rua? Ou uma história das empregadas domésticas? É preciso rememorar os esquecidos do passado, tal como apontou Walter Benjamin em suas “Teses sobre o conceito de História”. Mesmo que muitos do curso de História possuam como objetivo somente a sala de aula (ensino fundamental e médio) isso também se faz necessário, diria que ainda mais necessário! Os alunos e alunas precisam ter a consciência de que a História é muito mais que um marechal que “proclama” uma república, e que ele e seus pais, que são trabalhadores, também são sujeitos históricos.
Antes de tratarmos de patrimônio de forma mais ampla é necessária uma discussão acerca do que chamamos de “fontes”. De acordo com a abordagem inicial do livro “A Pesquisa em História”, uma parceria de Maria do Pillar, Maria do Rosário e Yara Maria, durante o século XIX, quando a História ganha um status de “ciência” pelos positivistas, a palavra “documento” passa a ser usada como sinônimo de prova científica. Como documento, no sentido positivista da palavra, entendemos o que é escrito, e não é qualquer escrita, mas sim aquela emitida pelos governos, em síntese, nestes é que reside a “verdade”.
Isso configura algo demasiadamente problemático pois, supõe que a História é feita somente por grandes heróis, onde estão as mulheres, os trabalhadores e as crianças nessas narrativas? Outro grande problema nisso é a negação de história a povos que relatam suas trajetórias não por uma via da escrita, mas por uma rica oralidade. É dizer, por fim, que os griots, mestres da tradição oral no continente africano, não possuem história. Estariam eles eternamente condenados pela afirmação de Friedrich Hegel de que o continente africano não possui história?
Com contribuições como a da Escola dos Annales, a História passará a abarcar aspectos sociais, para além desses “grandes homens”, como estudos sérios acerca dos campos, como foi o caso de Marc Bloch, este que em seu livro “Apologia da História ou o Ofício do historiador” defende que a história é a ciência dos homens, mas que diferente da Sociologia ou da Antropologia, tratam deste homem no tempo.
Neste bojo, a escrita da História passa a estar lastreada em qualquer vestígio humano, desde a literatura de um dado período, como também a música, o cinema, e a própria história oral. Além de todo este advento, supera-se a ideia de que o “documento fala por si mesmo”, é preciso fazer perguntas a ele. Entender, por exemplo, que não se vai retirar um mero reflexo de uma dada sociedade em uma obra literária, mas sim uma expressão das representações acerca desta.
Um relato de viajante, outro tipo de fonte, não nos mostra a “verdade absoluta”, mas sim a forma como aquele viajante representou aquele dado local ao qual esteve ciente, com seus preconceitos e valores. Ninguém é isento! Nem mesmo o historiador que escreve um dado texto, a forma como este visualiza a realidade se reflete muito na sua escrita.
Considerei de suma importância para a discussão acerca de patrimônio a abordagem realizada no livro “A Pesquisa em História” sobre a condução de uma pesquisa. Ela se encaixa perfeitamente ao Gerson Rodrigues e da forma como este o conduziu, de modo a abarcar com mais vida o seu objeto. Como ressaltei no início, mais do que uma “fonte friamente analisada”, o professor da Universidade Federal do Acre reconstituiu vivências de pessoas que “tem nome e tem rosto”, como o sr Francisco e do sr Maurício em suas vivências naquela mata em torno do rio Muru, este que, é de fato um patrimônio histórico, conforme abordarei mais adiante com profundidade maior.
Retomando à obra metodológica e teórica, sua abordagem sobre a condução de uma pesquisa, nos é feito um importante alerta acerca do diálogo com as fontes. Muitos trabalhos fazem uso de um “método prévio” tal como uma “receita de bolo”, para que assim se possa analisar suas fontes, percorrendo um caminho com início, meio e fim, herança, segundo as autoras, cientificista do século XIX: “ Esta forma de se conceber a pesquisa histórica supõe uma submissão do historiador, tanto aos procedimentos do método como aos recursos da técnica, pois a ênfase recai nos procedimentos do pesquisador em detrimento de sua relação com o objeto”. (p 40)
Mais adiante, evoca os argumentos do historiador Ciro Flamarion Cardoso, afirmando que as perguntas que devemos fazer as fontes devem ser feitas não nas fontes em si, mas antes baseadas em arcabouços teóricos e metodológicos prévios. As autoras fazem um contraponto a isso, defendendo um diálogo ainda maior com as fontes a fim de dar sequência com um bom trabalho.
Não cabe, vale lembrar, se desvencilhar de quaisquer métodos ou “base teórica”, Gerson Rodrigues, por exemplo, dialoga com Thompson em sua valorização da experiência dos trabalhadores do rio Muru, mas sim não serem esses os nortes pelos quais uma pesquisa seguirá; acrescentaria que é preciso que esses arcabouços não ofusquem esses “esquecidos” que, como ressaltados, são sujeitos de sua própria história!
Certa vez, um professor da graduação (o nome e a disciplina ministrada serão resguardados por questões éticas), contou de um caso em que foi chamado para uma banca de mestrado, cujo trabalho se propunha a abarcar as vivências dos seringueiros. Ao ler o trabalho da mestranda, tudo o que pode ver nele eram “teorizações mirabolantes” sobre as ideias de Bourdieu e Foucault. “Mas menina, onde estão suas fontes? Que que o Bourdieu entende se seringueiros?!”
Na anedota acima, muitos graduandos interpretaram o docente como se estivesse censurando o uso de teóricos, ou, mais especificamente, desses dois teóricos. Isso é cair em um grande engano: sua crítica se relacionava com a feita pelos demais autores aqui mencionados: a censura a trabalhos onde você parte muito da teoria para a prática, ou à aqueles em que você só fica na teoria e não aborda os patrimônios históricos no que eles são, em um contato que remete até mesmo a afetividade.
Podemos fazer um paralelo entre a noção tradicional de documento como algo escrito, e escrito por pessoas “relevantes”, e que prova com a noção de patrimônio histórico como estritamente arquitetônico.
Quando falamos em patrimônio histórico muito provavelmente o que vem na mente de uma pessoa é o Teatro Amazonas, o Teatro Municipal de São Paulo (o próprio Marcos Silva o explora como exemplo em seu texto), ou o famoso Cristo Redentor. Dificilmente as pessoas reconheceram como patrimônio um sotaque, uma determinada festividade, ou (retomando para o exemplo inicial) uma canoa. No entanto, Marcos Silva nos adverte que essa diversificação não deve ser confundida com a diversidade de temas abordados pelos historiadores: “(...) está-se diante de fazeres sociais. Para cada material interpretado, há um contato com lutas, acordos, potencialidades, limites. ”
Ele faz este alerta sobretudo para os relatos orais, como já mencionado e citado anteriormente para se referir ao trabalho de Gerson. E mais do que isso, a canoa usada por esses sujeitos, sua fala, suas histórias da mata, a forma como executam o trabalho, todos são patrimônios que contém trajetórias de vida imbuídas.
Marcos Silva aponta para a não separação de patrimônio histórico de ensino de história, mostrando como ambos estão inteiramente ligados. São, segundo ele, partes de um mesmo processo, onde se procura
(...) evidenciar múltiplas virtualidades e opções contidas no ensino de história como experiência que abrange o domínio ampliado sobre um campo erudito e o diálogo com os universos de vivências sociais dos grupos humanos estudados e daqueles que o estudam. “ (SILVA, p 40).
Eis a importância inclusive de se estabelecer um diálogo em sala de aula sobre a própria noção de patrimônio a fim de destruir este “lugar comum” que o define como um elemento arquitetônico, na grande maioria algo que de fato é pertencente à elite, em que muitas vezes o aluno de uma família proletária não o identifica com suas vivências e tradições; ao ampliar o leque deste debate, se evidencia que elementos banalizados, como sua fala, também se trata de um patrimônio histórico.
Marcos Silva trata disso no exemplo do Teatro Municipal de São Paulo, local criado especificamente para a elite no século XX e que, ainda hoje, mesmo com atrações gratuitas, muitas pessoas humildes possuem uma certa vergonha de assistirem a um espetáculo; é possível fazer um paralelo deste exemplo com o Teatro Amazonas, onde de fato há muitas atrações gratuitas nos dias atuais, mas que muitos manauaras possuem receio de assistirem às atrações.


REFERÊNCIAS

ALBUQUERQUE, Gerson Rodrigues de. Trabalhadores do Muru, o rio das cigarras. Rio Branco/AC, EDUFAC, 2005.
BLOCH, Marc. Apologia da história, ou, O ofício de historiador. Rio de Janeiro/RJ, Jorge Zahar, 2001.
BURKE, Peter. O que é História Cultural? Rio de Janeiro/RJ, Jorge Zahar, 2008.
HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de aula: visita à história contemporânea. São Paulo/SP, Selo Negro, 2005.
SILVA, Marcos. História: o prazer em ensino e pesquisa. São Paulo/SP, Brasiliense, 1995.
VIEIRA, Maria do Pilar; PEIXOTO; Maria do Rosário; e KHOURY, Yara Aun. A Pesquisa em História. São Paulo/SP, Ática, 1989

SOBRE O AUTOR

¹ Marcos Alvarenga é graduando em Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Seus interesses de pesquisa remetem ao estudo da nacionalidade através da literatura em África, a negritude e a presença negra na Amazônia.









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sábado, 19 de agosto de 2017

Sobre ser Historiador

Pintura de Eanger Irving Couse.

História, ciência do homem no tempo. Existem, claro, pessoas que discordam desse termo “ciência”, demasiado positivista para elas, herança de um anseio de cientificidade vindo do século XIX. Devo recorrer, então, à definição um pouco mais abrangente de Leopold Von Ranke, segundo a qual ela é, “ao mesmo tempo, ciência e arte”? Saindo dessa breve discussão sobre o conceito de História, nesse dia 19 de agosto, Dia do Historiador, me faço dois questionamentos pertinentes: Porque escolhi esse curso? Porque sou historiador?

Bom, desde cedo sempre gostei do cotidiano, do movimento de pessoas, de cargas, pelas ruas do meu bairro e da cidade. As personagens peculiares, as ruínas e as casas antigas, as estórias e lendas locais, as manifestações religiosas e profanas, as conversas informais nas tabernas, nas repartições públicas, a orla do Rio Negro em contraste com a paisagem urbana. Foi através da escrita, ainda no Ensino Fundamental, que pude melhor expressar minhas concepções de mundo, da sociedade em que estou inserido, me reconhecer como agente do processo histórico. Ainda me faltava, claro, a formação, o conhecimento profundo dessa área, a profissionalização.

No início de 2015 veio o resultado da aprovação para o curso de Licenciatura Plena em História, na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Até o presente momento, ser aluno desse curso permitiu o acesso a diferentes conhecimentos, conhecimentos esses que ou reforçaram antigas convicções, ou sedimentaram e ajudaram a construir novas. Referenciais teóricos, metodologias, críticas, conselhos e ‘puxões de orelha’, todos aplicados, de alguma forma, no que aqui se pretendeu fazer. Agradeço aos professores Auxiliomar Ugarte, Maria Eugênia, Joana Clímaco, Almir Diniz, Luís Balkar, Ana Lúcia, Patrícia Silva, Sínval Gonçalves, Márcia Mello, Glauber Biazo, Kátia Couto, Thiago Atroch, Davi Avelino e Robeilton Gomes por tudo o que foi ensinado até agora.

Criei o blog História Inteligente com o intuito de incentivar os jovens e demais pessoas à leitura, à escrita e aos estudos das Humanidades, destacando a importância da História, que não é simples “memorização” ou conjunto de datas e fatos como ainda sustentam certas pessoas, marcadas por uma transposição didática há muito mal feita, mas que hoje toma novos rumos, mas antes uma ciência na qual se busca compreender os processos humanos, processos esses que por serem humanos são desiguais, no tempo, repercutindo em mudanças na estrutura de nossa sociedade. A boa História não é aquela dos fatos construídos e presa a uma estrutura, mas sim a que se assemelha (aqui me aproprio, de certa forma, dos postulados de Fernand Braudel, sobre longa duração) a uma comida preparada lentamente em fogo baixo, para que o gosto seja melhor apurado, para que a sutiliza dos diferentes temperos seja captada, fazendo com que o resultado final seja saboreado com maior prazer.

Escolhi o curso de História porque tenho um dever social, de fazer as pessoas se identificarem como agentes de um processo, construtores de suas realidades, elementos dinâmicos em um vai e vem constante, para que entendam a trajetória humana. Sou filho do meu tempo, não sou um juiz do passado, sou historiador porque busco compreender as mudanças e as ações e as motivações de homens e mulheres através do tempo.


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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Neocolonialismo e Guerra como "esperanças" de crescimento da Amazônia no pós-crise da borracha

Vila Operária de Fordlândia, às margens do rio Tapajós, no Pará, em 1933.

Na década de 20 do século passado, Europa e Estados Unidos controlavam boa parte dos países da África, Ásia, Oceania, Oriente Médio e América. A Amazônia foi economicamente controlada, por 30 anos, por agentes do capital estrangeiro. No entanto, uma dominação completa, característica do neocolonialismo (dominação política e econômica), surgiria na região, mais especificamente no Tapajós (PA) a partir do final dos anos 20.

Henry Ford, grande empresário da indústria automobilística do início do século XX, buscava a autossuficiência de matérias-primas para suas indústrias. Não só Henry, mas um grande número de empresários americanos voltariam a depender da borracha brasileira. Durante a Primeira Guerra, o comércio europeu se tornou instável, agravado que fora pelo bloqueio marítimo alemão. A Inglaterra, que detinha o monopólio da borracha, viu os estoques acumularem e os preços caírem. Visando garantir preços estáveis e impedir a acumulação do produto durante o pós-guerra, o país adotou, a partir de 1923, o Plano Stevenson, que, basicamente, passa a limitar a cota de cada produtor inglês.

Com menos matéria-prima no mercado e os preços novamente favoráveis aos ingleses, os grandes fabricantes americanos de pneus foram os mais prejudicados. Como reação, as grandes companhias da época (Goodyear, Firestone e Ford) passaram a buscar diferentes locais, da América à África, para implantar seus próprios seringais.

José Custódio Alves de Lima, cônsul geral do Brasil nos Estados Unidos, depois de saber do interesse do empresário em criar um seringal em Everglades, na Flórida, lhe sugeriu a Amazônia como local de implantação para seu projeto. José Custódio, em contato com Dionísio Bentes, governador do Pará, facilitou para Ford a aquisição de um milhão de hectares no Tapajós. A Companhia Ford, através de contrato firmado com o governo do Estado do Pará em 03/01/1927, tinha o direito à exploração das terras, dos minerais e de outras matérias-primas nela encontradas; de realizar a navegação nos rios Tapajós e Amazonas; construir estradas, armazéns, fábricas, criar núcleos de povoação, escolas, linhas de comunicação etc, sem necessidade do aval de qualquer autoridade. Poderia criar sua própria relação política, sem intervenção do governo. Estava, também, isenta de qualquer imposto pelo prazo de 50 anos. Surgiu um território americano na Amazônia, independente do Brasil, gerido por uma empresa privada.

Antigos trabalhadores das cidades do interior, dos seringais e de outras atividades atingidas pela grande crise, passaram a se dirigir à região que ficou conhecida como Fordlândia. Xingu, Madeira, Purus, Acre, Solimões, Guaporé e Jutaí foram os maiores “fornecedores” de mão de obra. Essas pessoas, acostumadas com um tradicional sistema de trabalho comandado pelo aviamento e pela rigidez do seringalista, pela primeira vez venderiam suas forças de trabalho através de um sistema de contrato. O funcionário recebia da Companhia uma chapa de alumínio, com seu número de identificação e tipo de serviço, pelo valor de dez mil réis. Através dessa chapa eram controladas as faltas, as licenças para tratamentos médicos, pagamentos de férias e transferências.

O regime de trabalho era pesado, indo de 7 da manhã à 17 da tarde, com direito a uma hora de intervalo. Relógios e sirenes ditavam o início e o fim do dia. Nos Estados Unidos vigorava a Lei Seca, que proibia o consumo de bebidas alcoólicas em todo o território. Henry Ford, com apoio do governo paraense, implantou a medida em Fordlândia, onde já existia um considerável número de bares e casas de diversão. Para escapar da rigidez da fiscalização, à mesma maneira que nos Estados Unidos, surgiu um intenso movimento de contrabando de bebidas. Nos barracões onde eram feitas as refeições dos funcionários de patentes mais baixas, peixe e farinha eram substituídos por pão e espinafre, e servidos em bandejas padronizadas. A imposição dessas mudanças, nos anos 1930, fez surgir movimentos de greve radicais, com a destruição de galpões, tomada de usinas e refeitórios.

Os funcionários americanos abandonaram Fordlândia. Foi preciso a intervenção de forças policiais para o fim do movimento. Mas, antes mesmo de qualquer revolta, essa concessão já não mostrava os resultados esperados:

A grande distância do porto de Santarém, dificultando a comunicação e o abastecimento comercial, a reduzida força de trabalho, a não seletividade das mudas e sementes de seringueiras e a topografia do local, bastante acidentada, representavam um entrave para a lucratividade da empresa¹.

Soma-se ao fracasso técnico a doença do mal das folhas, que atacava a árvore da seringueira e reduzia a produção do látex. Com o fracasso da primeira concessão de terra, a Ford permutou com o governo uma parte de Fordlândia por outra, dessa vez Belterra, distante 30 milhas de Santarém. Da mesma forma que na primeira, Belterra recebeu todos os aparatos necessários para seu funcionamento: escolas, hospitais, vilas, instalações industriais, um porto e estradas. Os antigos trabalhadores de Fordlândia foram transferidos para Belterra, e também foram realizadas novas contratações. Esse, que parecia ser o emprego dos sonhos, mostrava sua face mais cruel com a política da empresa para com os funcionários. Um anúncio da companhia em 1943, publicado em O Jornal de Santarém², oferecia 9 cruzeiros por dia para homens e 6 para mulheres. As crianças, que já eram aceitas a partir dos 7 anos, ganhava 0, 50 por hora de serviço. Os fiscais estavam sempre atentos aos afazeres dos funcionários. Por menor que fosse o erro, o trabalhador era expulso da companhia sem o direito de tentar se explicar. Esses problemas, a baixa produtividade das plantações e a invenção da borracha sintética buna, mais barata que a natural, deram fim ao projeto, que durou de 1927 até 1945.

Entre 1942 e 1945, o Amazonas se viu inserido no conflito mundial. Em 1941, o Japão atacou bases Aliadas americanas e britânicas no Pacífico, dominando logo depois as colônias asiáticas produtoras de borracha. Sem acesso a essa matéria-prima, útil à indústria bélica e manufatureira, os Aliados voltaram suas atenções para o Amazonas. Em 1942, navios brasileiros foram torpedeados pelos alemães, o que fez o país declarar guerra ao Eixo.

O Amazonas, através de acordos firmados entre o Brasil e os Aliados, entrou no conflito como fornecedor de borracha. Mais uma vez ocorreria um surto de imigração nordestina para a Amazônia. Através dos “Acordos de Washington”, ficou estabelecido que os Estados Unidos investiriam no financiamento da produção de borracha na Amazônia, enquanto que o governo brasileiro se encarregaria de recrutar o maior contingente possível de trabalhadores. Estima-se que, entre 1942 e 1945, o governo conseguiu enviar do Nordeste, que passaram por uma terrível seca, cerca de 60.000 retirantes para a região Norte. O sistema de trabalho dos seringueiros continuava sendo o mesmo do início do século: em situação de semi escravidão, preso ao aviamento como devedor de um sistema cíclico. O governo norte-americano ficou de pagar 100$ por trabalhador instalado nos seringais. Manaus se tornou uma das subsedes da Rubber Development Company, órgão criado para administrar os serviços no Estado. A exportação da borracha, a circulação monetária, a construção de um aeroporto, os investimentos na capital e a especulação imobiliária criaram um momento de recuperação.

Enquanto o conflito ia se encaminhando e delineando o mapa político do mundo, os amazonenses e paraenses, inflados pelas propagandas do governo de Getúlio Vargas, mergulhavam, às de vezes de forma violenta, em um sentimento patriótico. Há registros, em Manaus, da malhação de bonecos de Judas como o nome ‘Xitler’, uma paródia com o nome do ditador alemão Adolf Hitler. Na Vila de Tomé-Açú, no Pará, foi construído um campo de concentração que chegou a receber 480 famílias japonesas, 32 alemãs e algumas italianas, tanto do próprio Estado quanto do Amazonas. Essas famílias, em Manaus e Belém, sofriam perseguição, tinham seus estabelecimentos e residências depredados pelo simples fato de virem dos países que formavam o Eixo.

Esse pequeno surto de desenvolvimento, de patriotismo, teve fim com a Segunda Guerra. O antigo mercado asiático estava novamente aberto, novas técnicas aperfeiçoaram o uso de borracha sintética. Já não existia mais a necessidade da borracha amazônica. O conflito acabara e, com ele

as esperanças de tirar a região do abismo sem fim do subdesenvolvimento. Os planos de desenvolvimento concebidos nos “Acordos” foram abandonados, as verbas indenizatórias dos trabalhadores foram descaminhadas, as estruturas do atraso não foram rompidas e tudo voltou como dantes. As atenções do governo federal agora são para as regiões Sul-Sudeste, por estas apresentarem mais condições de dinamismo econômico. A Amazônia vai ser mesmo esquecida do resto da nação por muito tempo³.

A Amazônia se viu novamente abandonada. O capital estrangeiro, depois de mais de 40 décadas conseguindo alguns resultados satisfatórios, foi direcionado para mercados mais estáveis. Em socorro à região, a nova Constituição de 1946, no artigo 199, de autoria do deputado federal Leopoldo Péres, instituiu que a União destinaria 3% de sua arrecadação para financiar o Plano de Valorização Econômica da Amazônia. Em 1953 foi criada a Superintendência de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), que visava o desenvolvimento da agricultura, da extração mineral e da pecuária. Por falta de estrutura, principalmente de estradas, o plano não vingou. A construção da estrada Belém-Brasília, em 1958, atraiu o capital de grandes indústrias que passaram a funcionar no Pará. Em 1966 foi criada a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), que criou incentivos fiscais para empresas nacionais e estrangeiras se instalarem na região. O resultado desse programa foi a criação da Zona Franca de Manaus, zona de livre comércio.


NOTAS:

¹ AMORIM, Antônia Terezinha dos Santos. A Dominação norte-americana no Tapajós – A Companhia FORD Industrial do Brasil. Câmara Municipal de Santarém, Santarém (PA), 1995, p. 44.
² Ibidem, p. 108.
³ FIGUEIREDO, Aguinaldo Nascimento. Manaus nos anos 40 (II): A Segunda Guerra Mundial. 24/10/2015. Disponível em: http://historiainte.blogspot.com.br/2015/10/manaus-nos-anos-40-ii-segunda-guerra.html Acesso em 17/03/2017.


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Colin Mcphearson/Corbis/Latinstock - Rede Brasil Atual

domingo, 13 de agosto de 2017

As rezas e os rezadores de Manaus

Esse texto foi originalmente publicado pelo Professor Dr. Júlio César Schweickardt na Série Memória, da Secretaria de Estado da Cultura, Turismo e Desporto do Amazonas, em 2002. Nele são analisadas as práticas de benzedeiras e rezadores da capital (práticas de forma geral, não a trajetória de cada uma das personagens) e os significados de suas ações no universo da religiosidade popular brasileira.

Júlio César Schweidckardt


Quem não conheceu alguém que rezou ou reza? Quem não levou seus filhos para rezar quebranto? Quem nunca ouviu falar de mau-olhado, erizipela, cobreiro, rasgadura? As benzedeiras e os rezadores fazem parte do cotidiano dos bairros da cidade de Manaus. A imagem que nos vem à mente são de pessoas idosas que estão em suas casas aguardando a chegada de um pai ou mãe para rezar o seu filho.

A reza é uma coisa antiga, vem dos tempos da Idade Média na Europa, e faz parte do catolicismo popular. Algumas vezes teve a aprovação da Igreja e outras foi combatida como sendo superstição. Mas os problemas quase sempre foram com a medicina que estava se firmando como uma ciência objetiva e certa, e a reza representava uma coisa do passado que se utilizava da magia para produzir os seus efeitos. Atualmente, este conflito não existe mais porque essas mulheres e homens não representam mais uma ameaça.

Após cinco séculos de colonização a reza e o benzimento ganharam novas fórmulas e novas formas a partir das tradições africanas e indígenas, ou mesmo com os novos movimentos religiosos. Montero explica que a preservação de um catolicismo popular é porque os imigrantes portugueses que se instalaram no interior em zonas de pecuária e pequena agricultura de subsistência eram oriundos das camadas populares da Península Ibérica. Devido ao isolamento, esses grupos puderam conservar, de modo relativamente intacto, o catolicismo popular de que já era uma prática em Portugal. Essas zonas se constituíam "um depósito e reservatório de elementos religiosos tradicionais e arcaicos portugueses e brasileiros. Esse catolicismo popular, mais voltado para o culto dos santos, caracterizava-se, e caracteriza-se ainda hoje, por estar essencialmente ligado às necessidades práticas da vida". Como no interior não havia sacerdotes e médicos os rezadores eram pessoas de muito prestígio. Inclusive muitas eram procuradas também para rezar sobre uma plantação ou sobre um animal que estava doente.

Dissemos acima que a reza se encontra no contexto da magia, mas o que entendemos como magia? Em poucas palavras, magia é o entendimento de que palavras e gestos irão interferir no processo natural das coisas, ou seja, há uma relação entre fatos distintos que aparentemente não têm nenhuma relação relação, mas que se relacionam por meio da magia. Assim, as palavras certas sendo ditas pela pessoa certa e no momento certo pode fazer o sangue parar: "tomar o sangue pela palavra".

As fórmulas mágicas não foram reveladas pelas pessoas que as ainda usam, pois afirmam que se revelado pode perder a eficácia, ou elas podem ser penalizadas pela revelação. As fórmulas das rezas só podem ser passadas para pessoas do mesmo parentesco, ou se não há interesse por esses, podem ser passadas a uma pessoa que tem o dom. O ritual de iniciação é um elemento importante, e nesse está o aprendizado das fórmulas. Mauss confirma isso, dizendo que "o conhecimento da receita, o acesso da tradição, para emprestar, àquele que a segue, uma qualificação mínima". A tradição é um dos elementos que dá autoridade ao mágico.

A iniciação dá legitimidade para quem reza, mas não é qualquer um que pode ser rezador, pois precisa reunir algumas condições especiais para que possa exercer essa atividade. Mauss é categórico quando diz: "Não é mágico quem quer: há qualidades cuja posse distingue o mágico do comum dos homens. Umas são adquiridas, outras são congênitas; há as que lhe são atribuídas e outras que ele possui efetivamente". A pessoa que passou pela experiência de receber o dom já não é a mesma, ou seja, a torna uma pessoa diferente no seu meio social, pois possui as características do sagrado, e é reconhecida como tal.

A partir do momento que a sua prática se torna social, ela se torna uma obrigatoriedade, ou seja, a pessoa está amarrada ao dom. A doença ou a morte são interpretadas pela negação de se continuar a rezar. O sagrado envolve situações de perigo, pois a pessoa não é mais livre propriamente dita, pois a sociedade a identifica como sendo portadora de características especiais.

O mau-olhado nos adultos o quebranto nas crianças é um dos problemas centrais na reza, pois relaciona o olhar com o falar. O grande público que frequenta os rezadores é de crianças, crianças que receberam o mal através de palavras de agrado. É uma contradição dizer que o mal vem pelo elogio e pelo agrado. A explicação dada é que a inveja e a competição é que cria o mal, mas em outros isso pode ser uma característica da própria pessoa como é o caso do sobrinho que sabe, mas que não pode fazer nada para evitar senão que os outros devem esconder dele os animais e proteger as crianças. Por outro lado, a própria fala pode curar através da reza, mas isso não conduz a uma relação dicotômica entre o diabo como representando o mal e Deus o bem. Isso vai aparecer no conflito entre os diferentes tipos de mágicos, onde um acusa o outro de provocar o mal voluntariamente através do ritual. Em geral, o mal é ocasionado pelo olhar e pela fala sem que necessariamente a pessoa seja má, é como se houvesse uma autonomia desses dois elementos, que agiriam involuntariamente na pessoa.

Por isso que conhecer a magia é compreender a sociedade que cria os elementos simbólicos necessários para dar forma e presença ao fenômeno mágico. Em outras palavras, a magia existe intencionalmente na consciência das pessoas, tornando-se uma realidade prática para aqueles que compartilham da mesma interpretação e fazem parte do mesmo universo simbólico. É a própria no interior do grupo social que forma a consciência das coisas das coisas na vida das pessoas.

Ainda uma última questão: a magia funciona? Sim, ela tem uma eficácia que se mostra exatamente no momento em que as pessoas ao dizerem o que têm já estão dando um sentido e ordem à desordem. Então ela acredita que aquilo que está acontecendo é possível de acontecer e que somente há uma forma de cura: a reza.


BIBLIOGRAFIA:

MONTERO, Paula. Da Doença à desordem: a magia na umbanda. Rio de Janeiro, Graal, 1985.
MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. Vol. 1. São Paulo, EPU, 1974.
SCHWEICKARDT, Júlio César. Magia e religião na modernidade: os rezadores em Manaus. Manaus, EDUA, 2002.

FONTE:

SCHWEICKARDT, Júlio César. As rezas e os rezadores. Série Memória. Manaus, Secretaria de Estado da Cultura, Turismo e Desporto, 6° ed, n°86, novembro de 2002

CRÉDITO DA IMAGEM:

Portal das Missões

sábado, 12 de agosto de 2017

O mobiliário das casas de Manaus entre os séculos XVII e XIX

Esse texto foi originalmente publicado em 2002 na Série Memória da Secretaria de Estado da Cultura, Turismo e Desporto (AM) pelo historiador e folclorista Mário Ypiranga Monteiro (1909-2004), com o título O recheio das casas nos séculos XVII a XIX. Nesse texto o autor analisa o mobiliário das casas manauaras e a transformação deste através dos séculos, sendo um estudo do campo da História da cultura material, da relação cotidiana que os homens tem com os objetos que fazem parte do espaço onde vivem.

O recheio das casas nos séculos XVII a XIX


Mário Ypiranga Monteiro

O viajante francês Olivier Ordinaire, visitando Manaus ao derredor de 1870, achou divertida e embaraçosa a situação de acomodar-se na sala de visitas de uma casa de mediana renda. Só havia um triste baú de sola, daquele modelo taxiado cuja foto (1900) publiquei no segundo volume da minha História da Cultura Amazonense (1998). Diz ele que o visitante só poderia contar com um baú para sentar. Não discrimina a rede de dormir. Mas antes de fazê-lo, obrigava-se a saber "se havia santo no baú". Se houvesse era sacrilégio sentar-se. E o santo, no seu dizer, era São Benedito, "padroeiro de Manáos". Abstraída a referência ao orago, que é mesmo Nossa Senhora da Conceição, o retrato da pobreza imobiliária das moradas de casas era aquele, de que dão notícia as ilustrações de muitos livros da época. Os habitantes não privavam do luxo europeu, até então. Por duas razões: primeira - porque a tradição sustentada pelo natural excluía qualquer tipo de móvel que não fossem o banco monóxilo, a esteira e a rede de dormir, o leito suspenso de que o europeu logo se apropriaria, introduzido na Espanha por Cristóvão Colombo; segundo - porque não houve, desde logo, uma experiência instaurada pelo migrante europeu (portulhano), que só trazia na parafernália aquele triste baú, então todo de couro, onde ele arrecadava os trapos misturados com o pão negro e o chouriço. Foi o único móvel europeu (depois da mesa), introduzido com sucesso e franquia na cultura amazoníndia, que teve a graça de passar à aristocracia da sala de visitas brancarana e do colono. Depois desses vem o penico, mas esta é outra história. Da rede como móvel único fala Bates na p. 174 do volume primeiro de sua obra.

Barco a vapor indo de Belém para Manaus. Notem, no canto direito, um baú do tipo canastra e um banco de quatro pernas à esquerda, além das redes de dormir utilizadas pelos passageiros. Gravura de Édouard Riou na obra O Tour do Mundo (1858-1859).

A riqueza da casa amazonense entre os séculos XVII e XIX consistia em poucos haveres, que podem ser discriminados assim, pela hierarquia de merecimento e serventia: baú, arca, rede de dormir e canastra. Suas posições na casa, a partir da sala de visitas, eram cativas, determinadas pelas necessidades práticas e não pelo bom gosto: baú na sala (e rede de dormir, não raro); arca na alcova (e rede de dormir); esteira na sala, na alcova e na casa de refeições; rede de dormir (essencial) na alcova e na varanda; canastra na casa de refeições ou num quarto a mais se houver. O móvel seria um pouco mais alto do que a arca e só servia para guardar mantimentos secos do tipo pernil defumado, bolacha, farinha, pão negro; ou cozidos e assados, milho, tortas, pastelões, frutas e legumes. E talvez uma ou outra botelha de vinho. Para evitar-se a visita desabusada dos ratos coró, dos trêfegos quati, dos preás e das operosas formigas, dos macacos irrequietos, pois o que mais abundava era a criação doméstica, os xerimbabos, cão, macaco e papagaio, os três eternos representantes do franciscanismo do homem amazônico. Você poderá ver isto nas ilustrações de livros. O sábio viajante Louis Agassiz mostra macaco, cão, iabuti. Suínos e galináceos foram introduzidos pelos espanhóis, anos antes.

Mais tarde, quando as moradas de casas forem arquitetonicamente autonomizadas, o governo reinol mandaria distribuir ferramentas aos colonos e índios, em pequenas unidades do tipo enxó, plaina, serra, machado, terçado, facas, martelo, sucata de ferro para o ferreiro reduzir a forma de arganéis, correntes, barras, gargalheiras, bisagras, bedelhos, etc. Armas de fogo só a um ou outro, para caçar. Não havendo ainda a serra grande e nem mesteireiros capazes, não poderia haver móveis, e o especialista mais requisitado naqueles tempos era o ferreiro, uma personalidade estimada, respeitada, com assento nos concelhos, porque a ele caberia o trabalho de fundir as armas, canhões, mosquetes boca de sino, espadas, adagas, escudos, couraças, elmos e cuias, lanças, alabardas, adereços muito mais necessários e urgentes numa região adversa do que o luxo dos gabinetes solarengos, dos palácios.

Quando as residências apresentarem melhor aparência, em termos de testada, soalho de tijolos vermelhos e/ou mesmo de tábuas não macheadas, o móvel rústico começa a aparecer, da sala para a casa de refeições: tamboretes de quarto pernas, bancos, cadeira e mesa. Não há vestígio de armários, estantes, guarda petiscos, sofás, mas a rotineira canastra pode ser substituída pela credência de duas a quatro gavetas. O berço da criança é a rede e o macuru. No gineceu, invés do tálamo imponente de 1850 em diante, apenas o "toro" ou "estrado", ainda sem colchões, forrado pela macia esteira de palma inaiá. Ainda subsiste no interior do Estado. Foi a emancipação da Comarca do Rio Negro que modificou para melhor o embrutecimento nessa linha de comodidade doméstica e artística. João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha inaugurou a nova Província do Amazonas num ambiente saturado de comodidades, mas não de luxo, por isso teve de organizar todas as secretarias, dotando-as de mobiliário mais sofisticado do que as primitivas cadeiras de palha da Ilha da Madeira. No século XX as residências de estima foram equipadas com os modelos "austríaco" (móveis vergados), "Luís XV" e "chipendale". Nessa altura, a nova moda conhecida como tournant du siècle, as ferragens da moda Império invadem Manaus, na forma de cadeiras, mesas, escadas, camas, estatuetas, cofres de segurança, fogões monumentais de dez bocas, tudo o que a França era capaz de produzir. E nós, que exportávamos madeira para a Europa, desde o século XVI, não tínhamos uma fábrica de beneficiamento, porque o monopólio real açambarcava as madeiras de lei, ditas assim até hoje, porque leis rigorosas protegiam-nas: aguano, cedro, muirapininga, acaju, pau-amarelo, pau-rosa, pau--campeche (pau-brasil), copaíba, louro, mogno, etc. Os móveis importados da Europa eram de faia, carvalho, cedro, nogueira, pinho, sândalo, cerejeira, etc, dos quais os mais apreciados pelo aroma eram o pinho de Riga e o sândalo.

O cientista inglês sir Henry Walter Bates, no meado do século XIX, conta que viu o coronel Praia, de Tefé (avô do dr. Cleto Praia), almoçando (café da manhã) com o padre sobre esteira, mas não havia talheres, por isso que pediu desculpas. E em muitas outras residências os pratos eram substituídos por folhas de pacova sororoca e/ou da olorosa folha de arumã. A ilustração, de 1865, do livro de Louis Agassiz, mostra o interior de uma residência onde a mesa, na casa de jantar, já constitui referencial de prosperidade, mas não há cadeiras, que poderiam ser substituídas por bancos. Outra gravura no livro do francês Biard, daquela época, mostra só a mesa e macacos.

A sala de jantar de uma casa de Manaus retratada em uma gravura de Édouard Riou, na obra Dois Anos no Brasil (1862), de Riou Biard.

A introdução de móveis no Amazonas verificou-se, como primeira experiência, à época das Comissões de Limites e Demarcações, mas daí por diante sua influência foi obstada pela carência de tecnologia e de instrumentos apropriados. Por outro lado, a indústria artesanal da ferraria desenvolveu-se rapidamente. Torna-se compreensível: era mais necessária a lâmina de uma alabarda do que uma cadeira. Até mais ou menos a vinda do governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado, não havia serrarias manuais na colônia, portanto o miserável expatriado teria de contar com o parco inventário do índio, que possuía por assento apenas o ritualístico banco monóxilo em forma de iabuti, ou de ave, universal desde o mar dos Caraíba. Além deste ele poderia fazer rapidamente um assento rústico com três estivas ensarilhadas, sem auxílio de pregos ou cipós, proeza que o branco inventivo não consegue fazer e se fizer não se equilibra nele. Pode argumentar-se que a rede, a esteira e o jirau (estrado) foram os únicos recursos que o colono encontrou para acostar-se, mas nem mesmo o jirau é de influência europeia, pois dele existe documentação gráfica.

De maneira geral o móvel europeu é imitado numa linha de rusticidade que diz bem da inclinação do nativo pela alternativa, ou seja pela miscigenação: ele copia a utilidade, não as linhas estéticas. Na época em que floria o rococó não há exemplo de sua presença na Amazônia, em forma de imitação. O que havia, e era escasso, vinha do reino. Daqueles cadeirões de espaldar alto lavrados a bisel, torneados e pintados de ouro, forrados de damasco não ficaria senão a memória.

A época da aceitação da variada movelaria europeia coincide com o princípio de enriquecimento da burguesia, com a instituição do patriarcado do cacau. É quando aparecem as casas-grandes, as mansões cobertas de telha, assoalhadas ou apenas pavimentadas de tijolos vermelhos. Certos romances costumbristas do romantismo destacam alguns ambientes de respeitabilidade, mas infelizmente eles são em pequeno número, além de que rurais e não urbanos, e a documentação escrita ainda menos ajuda. Tem-se a impressão de que a abundância de peças utilizáveis que recheavam as moradas de casas era mais quantiosa e diversa no interior do que na capital onde a burguesia era mais de funcionários e comerciantes do que capitalistas. Terminado o ciclo do cacau, só iniciamos o ciclo da goma elástica depois de 1800, quando Dom João VI recebe do Amazonas, então mera Capitania subordinada ao Grão-Pará, os artefatos de borracha em que figurava uma bota. Essa que depois passou à indústria artesanal, ensinou o homem a andar calçado mas não lhe deu condições para adquirir uma cadeira.



FONTES: MONTEIRO, Mário Ypiranga. O recheio das casas nos séculos XVII a XIX. Manaus, Secretaria de Estado da Cultura, Turismo e Desporto, 6° ed, n°88, novembro de 2002.

CRÉDITO DAS IMAGENS:

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin
Getty Images

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Apropriações e conquistas simbólicas do Cristianismo

Neste mosaico, da cidade de Ravena, Jesus é retratado como um Imperador Romano, utilizando vestes militares. Em uma mão carrega um báculo, na outra, as Sagradas Escrituras.

O Cristianismo é hoje a religião com o maior número de adeptos no mundo. Dos praticantes aos não praticantes, ele se encontra presente desde as pequenas vilas nos Andes até as grandes metrópoles da Europa. Foi um longo trajeto, desde a Antiguidade, até que essa religião com raízes no Oriente chegasse a essa posição, com seus agentes encontrando diferentes formas para sua expansão. Uma das mais conhecidas foi a apropriação de certos elementos do mundo pagão de forma a subvertê-los à nova realidade cristã, para atingir o maior número possível de pessoas, o que acarretou em verdadeiras conquistas simbólicas. O inverso também ocorreu, com o Estado Romano procurando formas de se associar ao novo culto para garantir uma ínfima sobrevida de suas já desgastadas estruturas. Nesse texto, destaco alguns exemplos, da Antiguidade, da Idade Média e da Idade Contemporânea, de apropriações e conquistas simbólicas do Cristianismo.

O Cristianismo se tornou, em 392, a única religião legalmente praticável no Império Romano. Os imperadores depois de Constantino, com exceção de Juliano, que tentou reavivar os cultos pagãos, realizavam doações em dinheiro, terras e financiavam a construção de basílicas em Roma e outras cidades importantes do Império. Essas medidas visavam a incorporação da população cristã ao Império, evitando assim qualquer tumulto desta, tendo em vista a delicada situação interna pela qual Roma passava pelo menos desde o início do século III. O Cristianismo tinha, agora, um terreno favorável para se expandir pelo Império Romano e outras áreas fronteiriças.

Para atingir ideologicamente a população e, como ocorrera antes com o paganismo, legitimar o poder, os imperadores passaram a associar suas imagens com a de Jesus Cristo. Dessa época existe uma rica iconografia que atesta essa associação. Na primeira imagem, um mosaico da cidade de Ravena, temos Jesus Cristo retratado como um imperador, usando vestes militares ao gosto romano. Segurando um báculo, insígnia dos bispos, traz na outra mão as sagradas escrituras, com os dizeres latinos Ego sum via, veritas et vita, que significam Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Em outras ocasiões, em painéis de marfim ou em mosaicos, esses mesmos imperadores eram representados sendo arrebatados por Deus, em famosas representações de apoteoses. Os romanos mais abastados tinham gravados em seus mausoléus cenas bíblicas como a expulsão do Éden, o martírio dos apóstolos e a ressurreição de Cristo.

Detalhe do Sarcófago de Júnio Basso, senador romano do século IV d.C., mostrando Jó e Adão e Eva no Paraíso.

Um pouco distante da vida política do Império, figuras do antigo panteão greco-romano também eram incorporadas e associadas aos simbolismos e práticas cristãs. Orfeu, personagem da mitologia grega que era médico e poeta, foi inúmeras vezes associado à figura de Jesus, do Bom Pastor e do Rei Davi. Orfeu desafiou a morte indo ao submundo e ficando diante de Hades, Deus do submundo e dos mortos. Jesus, na Bíblia, ressuscitou após três dias de sua morte. A passagem nas escrituras que melhor explica esse momento é: "E ele pôs sobre mim a sua destra, dizendo-me: Não temas; eu sou o Primeiro e o Último; e o que vive; fui morto, mas eis que aqui estou vivo para todo o sempre. Amém! E tenho as chaves da morte e do inferno." (Apocalipse 3.18). Orfeu e Jesus Cristo, duas personagens que escaparam da morte.

A lira de Orfeu tinha o poder de apaziguar a mais selvagem das feras, o que fazia os cristãos lhe associarem a Jesus e seu poder sobre a natureza e ao Bom Pastor que cuida de seu rebanho. O Rei Davi […] “quando o espírito maligno vinha sobre Saul, tomava a harpa, e a tocava com a sua mão; então Saul sentia alívio, e se achava melhor, e o espírito maligno se retirava dele” (1Sm 16.23). A harpa de Davi tinha as mesmas propriedades da lira de Orfeu. O mosaico abaixo, datado do século V, encontra-se no interior de uma igreja cristã de Jerusalém. Nele vemos, no centro, Orfeu tocando sua lira enquanto acalma algumas feras ao seu redor, incluindo o Deus Pã e um sátiro.

Mosaico do século V d.C. localizado no interior de uma igreja cristã de Jerusalém. No centro, Orfeu toca sua lira para apaziguar as feras ao seu redor, incluindo o Deus Pã e um sátiro.

Mais afastado do centro do antigo Império Romano no Ocidente, já na Idade Média, no Norte da Europa, o Cristianismo já não tinha mais como ameaça os romanos. O inimigo agora era outro: Os bárbaros germânicos que começavam a atravessar as fronteiras e a entrar em contato com outros povos, eram em sua maioria pagãos ou cristãos arianos. Esses povos eram, de acordo com os escritos de Orósio, genuinamente pagãos, pois viviam nos campos onde realizavam seus cultos rurais.

Tornou-se necessária a dessacralização da natureza e a valorização do elemento humano. O culto dos santos cumpre a função de substituir os antigos elementos pagãos presentes na natureza. O culto dos santos se mostra uma arma poderosa na luta contra o paganismo, pois torna o processo de conversão mais maleável, dessacralizando antigos símbolos pagãos e substituindo-os por imagens cristãs. São frequentes as iconografias de santos abatendo bestas como dragões, serpentes etc. O ato mais simbólico foi a derrubada, por São Bonifácio, no ano de 723, do Carvalho de Thunor (Thor), o Deus nórdico dos trovões e das batalhas. Da madeira da árvore Bonifácio construiu uma capela consagrada a São Pedro, o que marca o início da conversão da Germânia ao Cristianismo.

Gravura do século XVIII representando São Bonifácio derrubando o Carvalho de Thunor (Thor).

Na Idade Moderna, inúmeros territórios foram conquistados em nome da Coroa e da Igreja, ou de la espada e la cruz, como bem escreveu Ruggiero Romano, destacando a aliança militar e espiritual da conquista da América. Os ídolos maias, incas e astecas foram substituídos por imagens sacras de Santiago Apóstolo, Virgem Maria e Jesus Cristo. Boa parte das cidades coloniais foram erguidas sobre antigos templos nativos e cemitérios indígenas. A Catedral Metropolitana da Cidade do México, símbolo do poder espiritual cristão no continente, foi erguida sobre os escombros de um templo asteca.

Esse processo de apropriação, que leva à conquista simbólica, também ocorre entre diferentes vertentes do Cristianismo. Curiosamente, caminhando por meu bairro, me deparo com um arraial sendo realizado em uma Igreja mórmon de nome Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Era final de julho, fora da época dos festejos. Nenhuma menção a São Pedro, Santo Antônio e São João, nem de frases como anarriê, alavantú, balancê. O arraial foi apropriado do Catolicismo, este tendo apropriado a festa do paganismo, com a exclusão de vários elementos, preservando apenas o caráter popular da festa, que sempre atrai grande público. Essas apropriações parecem ser válidas a partir do momento em que são dados novos significados para antigos elementos e estes passam a contribuir para o fortalecimento e crescimento da religião.


FONTES:

_____Bíblia Sagrada. Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br/

_____Impérios sitiados (200-600) - O declínio romano, Renovação no Oriente Médio, Reinos chineses em tumulto e um vigoroso Novo Mundo. Tradução de Pedro Maia Soares. Rio de Janeiro, Editora Cidade Cultural, 1990. (Coleção História em Revista).

BASCHET, Jérôme. A Civilização Feudal: Do ano mil à colonização da América. São Paulo: Globo Editora, 2006.

ROMANO, Ruggiero. Os Mecanismos da Conquista Colonial. São Paulo, Editora Perspectiva, 1972. (Coleção Kronos).

CRÉDITO DAS IMAGENS:

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Rijksmuseum van Oudheden - Museu Real de Antiguidades dos Países Baixos

O Utilitarismo de Jeremy Bentham

Jeremy Bentham em pintura de Henry William Pickersgill.

Jeremy Bentham (1748-1832) foi um filósofo e jurista inglês, considerado o precursor da filosofia Utilitarista. Bentham viveu na virada do século XVIII para o XIX, sendo testemunha das principais transformações políticas, intelectuais e econômicas da Europa. É nesse contexto que ele cria o que pode ser considerada, embora alguns rejeitem a ideia, uma escola de pensamento filosófico baseada na aplicação lógica dos princípios liberais de Adam Smith (1723-1790).

O Utilitarismo de Jeremy Bentham parte de décadas de estudos em Direito, com destaque para a análise da teoria do Direito Natural. O Direito Natural pressupõe a existência de direitos e deveres intrínsecos ao homem, que lhes acompanham durante a vida de forma a manter a ordem na sociedade em que vive. Essa ordem necessita de um contrato original, de forma que, para exemplificar, se o Estado não cumprir seus deveres para com seus cidadãos, os cidadãos, para manter a “harmonia”, devem continuar obedientes a esse Estado. Para Bentham, essa teoria não é satisfatória a partir do momento em que não se pode provar historicamente a existência de um contrato e, se fosse possível, como seria explicada essa obrigação natural?

A resposta encontrada pelo jurista inglês seria a de que esse contrato é seguido porque garante vantagens à sociedade. O cidadão, de acordo com Bentham, deve obedecer o Estado na medida em que essa obediência contribui mais para a felicidade da sociedade do que para a desobediência. Essa felicidade é o resultado da soma dos prazeres e dores dos indivíduos. Bentham substitui a teoria do Direito Natural por essa visão utilitarista, das necessidades pessoais e gerais.

Nada representa tão bem o Estado quanto as leis. Foi a partir da crítica à legislação de seu país que Bentham trabalhou seu princípio utilitarista. Bentham compartilhava de Cesare Beccaria (1738-1794) esse princípio da obediência para a felicidade. Para este último, o objetivo final da legislação era a garantia da felicidade para o maior número possível de indivíduos. Por partilhar dessas ideias de Beccaria, entrou em conflito com os conservadores, que defendiam a manutenção da tradicional legislação inglesa. Além dos conservadores, existia o conflito com os revolucionários franceses, que defendiam o Direito Natural e os Direitos Universais do Homem. Para Jeremy, o homem só possui direitos a partir do momento em que contribui para a felicidade da sociedade como um todo, e a forma como estes eram aplicados pelos revolucionários, levando em conta os inúmeros episódios de violência do movimento, levaria ao individualismo e ao egoísmo.

O Utilitarismo como conduta individual e social é mais aprofundado por Bentham em seu Princípios da Moral e da Legislação, primeira obra de caráter filosófico. Nesse livro, o primeiro questionamento é quais sentimentos devem ser preferidos a outros, levando em consideração a conjuntura do prazer, que pode intensidade, duração, proximidade, intensidade, duração, proximidade, certeza, fecundidade e pureza. A próxima indagação é quais as recompensas e castigos que poderiam induzir o homem a realizar ações que criem felicidade e quais as motivações determinantes das ações humanas, com seus valores morais.

Para Bentham esses motivos devem ser chamados de bons a partir do momento em que levam à harmonia entre os interesses individuais e os interesses de terceiros, e maus quando prejudicassem esse equilíbrio. Dentre os principais bons motivos está a benevolência. Em seguida vem o respeito que outros tem de nós, o amor, a religião que traz motivações ligadas à nossa submissão ao sobrenatural. Logo depois vem sentimentos mais fortes, como o prazer, o privilégio e o poder. A aplicação prática dessas ideias se deu na reforma da legislação, que deveria ser mais humana, na releitura das leis para que estas ficassem mais claras para as massas, na melhora do sistema penitenciário e no incentivo à democracia mediante o sufrágio universal.

Foi no sistema penitenciário que Jeremy Bentham melhor aplicou seus princípios Utilitaristas. Bentham idealizou o Pan-óptico, a penitenciária ideal, na qual um único vigilante seria capaz de observar todos os prisioneiros. O Pan-óptico é uma prisão circular, com um observador no centro, de forma que este teria ampla visão das celas. Sobre os sentimentos, o medo e o receio dos presos, que não saberiam se estariam ou não sendo observados, faria com que estes pensassem suas ações e se comportassem. O modelo de construção circular com um observador central poderia ser aplicado também em fábricas, escolas e outras instituições que dependessem de um sistema rígido de disciplina e que buscasse baratear os custos com funcionários.

Planta do Pan-óptico idealizado por Jeremy Bentham. Desenho do arquiteto inglês Willey Reveley, 1791.

Da mesma forma que Jeremy Bentham questionou a validade da Teoria do Direito Natural e a substituiu por seu Utilitarismo que está assentado nas ações que conduzem mais à felicidade que à desordem na sociedade, alguns historiadores questionam a validade de seu Utilitarismo, pois não se sabe porque os homens devem agir em prol da felicidade de todos, já que as ações humanas, na maioria das vezes, giram em torno de interesses pessoais.


FONTE:

BENTHAM, Jeremy. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação. Tradução de Luiz João Baraúna. São Paulo, Abril Cultural, 1979 (Coleção Os Pensadores).


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