quinta-feira, 12 de outubro de 2017

No tilintar do triângulo, o sabor da infância: O vendedor de cascalho da Manaus Antiga

À esquerda, desenho de Moacir Andrade retratando um cascalheiro de Manaus em 1964. À direita, o senhor Justino Horácio, vendedor de cascalho. Foto de 2012.

Vindo de longe, ainda no começo da rua, já é possível lhe escutar. Caminhando sob o asfalto ardente da cidade, ele é capaz de causar, com o tilintar de seu triângulo, a correria das crianças, que vão em direção aos seus responsáveis para pedir o simbólico valor de 2 reais para comprar um doce simples que já era consumido por seus pais, avós e bisavós há muito tempo. É o vendedor de cascalho, cascalheiro se preferirem, personagem popular que marcou inúmeras gerações. Pretende-se, com esse texto, traçar um panorama das origens desse vendedor em Manaus, bem como analisar, através de relatos e fontes escritas, seu cotidiano e relação com a população da cidade.

Não é difícil identificar um vendedor de cascalho: Chapéu ou boné para se proteger do sol, triângulo e baqueta nas mãos. Na costa, um tubo de flandres, material laminado e estanhado próprio para o acondicionamento de alimentos, que quando cheio com os cascalhos, chega a pesar 10 quilos. Os mais antigos usavam uma camisa branca de tecido leve para melhor enfrentar o calor, calça da mesma forma, chapéu de palha, chinelos ou andavam descalços. Atualmente podemos ver vendedores usando camisa regata e bermuda.

Qual a origem do cascalheiro e desse doce? Esse vendedor é típico da região Nordeste, onde o doce recebe os nomes de “taboca (Salvador), […] cavaco chinês (Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal), ou ainda cavaquinho, especialmente na capital pernambucana. […] Em Fortaleza, pode ser chamado também de chagadinha ou chegadim” (ARAGÃO, 2013, p. 2). O cascalho, como é chamado em Belém e Manaus, é um doce de origem Ibérica, com referências na Espanha e em Portugal desde o século XIII, onde é chamado de barquillo (Espanha) e barquilho (Portugal). Popularizado nos séculos XIX e XX através de atividades ambulantes, seu vendedor, o Barquillero ou Barquilhero, carregava um tubo de flandres, a barquillera (as pranchas onde a massa é assada também recebem esse nome), produzida geralmente nas cores vermelha e azul, tendo o nome do fabricante estampado, que possuía na tampa uma roleta semelhante à de um cassino, marcada com diferentes números. Ela era parte de um jogo de sorte: Se fosse um grupo de amigos, aquele que tirasse o menor número pagaria todos os doces. Individualmente, pagava-se por rodada. Caso a roleta parasse no número zero, todos os doces adquiridos eram perdidos.

Desenho retratando um barquillero típico de Madrid, na Espanha, no final do século XIX. Notar a roleta na tampa do tubo de flandres, utilizada no jogo com os clientes

A receita tradicional é uma mistura de farinha de trigo, açúcar, canela ou mel (atualmente adiciona-se corante), e água, sendo a massa assada entre duas pranchas de ferro. Na América Latina, em países como México, Uruguai, Venezuela, Colômbia e Costa Rica vende-se um doce semelhante de nome oblea, biscoito fino de farinha de trigo recheado com doce de leite, leite condensado e chocolate.

Em Manaus, a referência mais antiga encontrada sobre os vendedores de cascalho data de 1912, em um caso de polícia: No dia 15 de setembro de 1912, Francisco de Almeida, “vendedor duma guloseima, vulgarmente conhecida pelo nome de chegadinho”, se dirigiu ao bairro dos Tocos (Aparecida) para vender seus produtos. Lá chegando, na rua Xavier de Mendonça, foi chamado por um homem, Manoel Felix de Araújo Filho, interessado nos doces. Francisco Almeida vendia três chegadinhos por um tostão. Manoel não os quis comprar diretamente, tentando primeiro a sorte: Na tampa do tubo de flandres, existia uma espécie de roleta com um marcador que apontava para diversos números. Dependendo do número em que caísse, o cliente ganhava o resultado em chegadinhos. Manoel Felix girou a roleta, que parou no número três. Ele, no entanto, não se conformou, exigindo que lhe fossem entregues quatro unidades. A partir daí, os dois passaram a discutir, tendo Manoel atingido Francisco com uma bengalada na cabeça. Em resposta, Francisco atirou-lhe seu triângulo, utilizado para atrair os fregueses, em sua cabeça. Manoel, enfurecido, desferiu uma facada no tórax de Francisco, que morreu no local, às 11:15 da manhã1. No tribunal, em 1913, julgado por assassinato por motivo torpe, foi condenado a 30 anos de prisão2. Esse, até o momento, é o registro mais antigo sobre a atuação desses vendedores na cidade, podendo, no entanto, ser este um tipo urbano ainda mais antigo. Interessante notar que, à maneira dos vendedores Ibéricos, seu tubo de flandres também possuía uma roleta na tampa, utilizada para o jogo com os clientes.

Foi de grande valia para a pesquisa a leitura dos memorialistas. Moacir Andrade registra a atuação dos vendedores de cascalho ao lado de outros trabalhadores como o vendedor de puxa-puxa, o vendedor de pirulitos, o vendedor de garapa, o vendedor de sorvete e o vendedor de bolo, entre as décadas de 1920 e 1930 (ANDRADE, 1985, 2006). Ainda de acordo com esse autor, por volta de 1935 o preço desses doces não ultrapassava um tostão cada (ANDRADE, 1985, p. 116-117), conservando quase o mesmo valor registrado no caso de 1912. O historiador Antônio José Loureiro (77) se lembra desses vendedores em sua infância, entre o final dos anos 1940 e início dos anos 1950, no bairro Praça 14 de Janeiro. André Vidal de Araújo se questionou se, além dos outros tipos populares, alguém se lembrava do “homem pobre do chegadinho” (ARAÚJO, 2003, p. 392).

Elza Souza (65), que passou sua infância e adolescência no bairro de São Raimundo, relata o seguinte:

Tenho muita saudade daquele cascalho redondo e cor de pele, diferente dos de hoje, laranjados por corantes. Isso era na década de 1960… Lembro do gosto que procuro até hoje nos cascalhos, mas parece que o bom costume morreu. Aqui no Conjunto Tocantins (bairro Chapada) um jovem passava toda noite tocando o tlem, tlem, que chama o freguês. Não o tenho visto muito.

O relato da senhora Elza Souza nos permite perceber as mudanças ocorridas no cotidiano da cidade, com a diminuição da atuação desses trabalhadores, alguns dos quais mudaram de ramo ou deixaram essa atividade, bem como a composição do doce, alterada, como diz a depoente, com a adição de corantes. Além dessas mudanças, percebe-se como o som do triângulo fica marcado na memória das pessoas. Sobre essa associação entre o som do triângulo, a venda do cascalho e as lembranças de infância, diz Gilberto Freyre:

Interessante de observar é que certos doces, vendidos por ambulantes, estão associados, no Nordeste, sons que, como o da campainha de Pavlov, em cachorros, despertam em meninos e adultos predisposições específicas de paladar: o som do triângulo dos chamados cavaquinhos, por exemplo (FREYRE, 2007, p. 49).

Em Salvador, na Bahia, um vendedor de taboca toca o triângulo para atrair os clientes. Foto de 2013.

O som do triângulo atrai, faz emergir memórias de outras épocas que ativam a vontade de comprar o doce. O cascalheiro carrega em sua figura diferentes aspectos de diferentes culturas. O triângulo que ele toca é um instrumento musical originário da Idade Média, também da Península Ibérica, vindo de Portugal, onde era utilizado em celebrações religiosas, se expandindo posteriormente no restante da Europa a partir do século XIV, passando a ser empregado em orquestras no século XVIII. No Brasil, com raízes no Nordeste, a musicalidade do forró, do xote e do baião lhe deram um aspecto singular. O nome chegadinho, como o doce é chamado em Fortaleza, e aqui citado no caso de 1912 e por André Vidal de Araújo (1956, 2003), pode ser uma pista de que para o Norte eles possivelmente vieram nas sucessivas ondas de imigração nordestina, principalmente vindas do Ceará, verificadas em diferentes momentos de nossa História.

O cascalho é produzido em algumas fábricas espalhadas por diferentes zonas da cidade. Os cascalheiros o compram por 0,50 a unidade, revendendo-o por 2,00 reais ou na conhecida promoção de três unidades por 5,00 reais. O antigo era empilhado, pego pelo vendedor com um guardanapo de papel e entregue na mão do cliente. Hoje, no entanto, já é possível encontrá-lo de forma padronizada em embalagens de plástico individuais, sendo vendido ao lado da broa e de outros doces.

Justino Horácio de Souza, vendedor de cascalho. Foto de 2012. Justino se veste à maneira dos vendedores antigos, com chapéu de palha, camisa branca de tecido leve, calça e chinelos.

Aguinaldo Nascimento Figueiredo (59), professor e historiador, lembra de sua infância e adolescência dos vendedores Zé do Cascalho, já bastante idoso na época, que atuava na área do Cajual, no Morro da Liberdade; e do Mané Periquito, que atuava nos bairros de Santa Luzia e Educandos. Justino Horácio de Souza (64) trabalha como vendedor ambulante há 33 anos, vendendo cascalho desde 2010. Vindo de Coari em 1982, criou nove filhos com a venda picolé, leite e cocada, mas para ele o melhor de todos os produtos é o cascalho, o qual chega a vender cerca de 150 a 200 unidades nos finais de semana. Hamilton Leão (49), escritor, lembra-se com detalhes do cotidiano de um vendedor que atuava na zona Sul entre as décadas de 1970 e 1980, além de outro que perpetuou o trabalho desse profissional:

O cascalheiro já com seus 70 anos de idade era uma figura conhecida nas ruas dos bairros pelos badalos insistentes de seu triângulo para anunciar a venda de cascalhos. Sua peregrinação diária era como um sacerdócio e a criançada já o esperava ansiosamente ao ouvir o singelo tocar do instrumento de trabalho daquela figura simpática que carregava os esperados amarelos cones doces num tambor de alumínio. Casas onde tinham bastantes crianças era a certeza da venda de seu produto, pois ficava insistentemente tocando o triângulo com seu som inconfundível de telengotengo, telengotengo, telengotengo, até a criança aparecer e comprar o esperado doce crocante da tarde. Os pais as vezes ficavam em situação de vergonha quando os filhos caindo em choro queriam deliciar do diário cascalho, mas não tinham como pagar. Mas isso não era problema para o querido cascalheiro, que sempre negociava com os pais e fiava para ser pago outro dia.

Bons momentos aqueles vividos na infância, ao deliciar aquele petisco doce e crocante feito de farinha de trigo e baunilha, que fazia um gostoso barulhinho ao ser mastigado e derretido na boca. A vontade de comer mais um ficava, mas era preciso se preparar para outro dia e com uma moedinha separada, porque, com certeza, ele estaria lá com seu insistente telengotengo, telengotengo, chamando-nos para provar mais uma vez o cascalho amarelo. O tempo se foi e com ele a lembrança do antigo cascalheiro, morador do bairro Mauazinho e hoje falecido, que percorria a ruas dos bairros da zona Sul para levar alegria com o toque de seu triângulo anunciando seus bons cascalhos. Hoje, para recordar aqueles momentos, a figura do saudoso cascalheiro foi continuada pelo Sr. Delson Carvalho que diariamente, vindo do bairro Jorge Teixeira peregrina a tarde pelas ruas dos bairros da zona Sul para anunciar o velho e gostoso cascalho, tocando seus instrumentos de sons audíveis a longa distância, fazendo lembrar os bons momentos de infância. Telengotengo, telengontengo, telengotengo.

Além de outros aspectos vistos em relatos anteriores, Hamilton cita um bastante importante naquelas décadas: a questão de fiar o doce, de receber o pagamento no outro dia. Era uma relação de sobrevivência entre o vendedor e a clientela, baseada na confiança que era construída diariamente através de diálogos, contatos e pelo desejo do cascalheiro de vender o seu produto e dos pais de verem os filhos satisfeitos consumindo o doce. Vale lembrar que um único vendedor poderia ser conhecido em vários bairros, pois o cascalheiro, em média, percorre por dia cerca de 10 a 15 quilômetros.

A caracterização, a receita, os tempos mudaram. A atuação do cascalheiro, assim como a de outros personagens urbanos como o vendedor de rala-rala, o pela-porco (cabeleireiro informal) e a rezadeira, vem diminuindo progressivamente. Essa é uma consequência da urbanização acelerada, que traz em seu bojo transformador, raramente planejado, a padronização e a exclusão do que antes era bem-visto ou recorrente na vida da população. As mudanças são perceptíveis. O cascalheiro está integrado à memória coletiva, esta entendida como “o que fica do passado no vivido dos grupos ou o que os grupos fazem do passado” (NORA apud LE GOFF, 1996, p. 472). O registro de sua atuação e relação com o meio em que está inserido garante a preservação de sua identidade social enquanto parte de um grupo reduzido de trabalhadores do meio urbano local.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ANDRADE, Moacir. Manaus: ruas, fachadas e varandas. Manaus: Gráfica de Gracimoema Sampaio, Humberto Calderaro, 1985.

ANDRADE, Moacir. Acontecimentos de um Amazonas de Ontem. Manaus: Imprensa Oficial do Amazonas, 2006.

ARAÚJO, André Vidal de. Introdução à Sociologia da Amazônia. 2° Ed revista, Manaus: Editora Valer/Governo do Estado do Amazonas/Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2003. (Coleção Poranduba).

ARAGÃO, Thaís A. O triângulo e o biscoito fino para as massas: reverberações culturais de uma prática ambulante. In: 9o Encontro Internacional de Música e Mídia, 2013, São Paulo. O gosto da música – 9o Encontro Internacional de Música e Mídia. São Paulo, 2013. p. 424-440.

FREYRE, Gilberto. Açúcar: uma sociologia do doce, com receitas de bolos e doces do Nordeste do Brasil. São Paulo: Global, 2007.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. 4° Ed. Campinas: Editora da Unicamp, 1996.

FONTES:

Jornal do Comércio, 15/09/1912
Jornal do Comércio, 19/02/1913


ENTREVISTAS:

Antônio Loureiro, 14/08/2017
Aguinaldo Nascimento Figueiredo, 14/08/2017
Elza Souza, 15/08/2017
Hamilton Leão, 17/08/2017

NOTAS:

1 Jornal do Comércio, 15/09/1912
2 Jornal do Comércio, 19/02/1913


CRÉDITO DAS IMAGENS:


ANDRADE, Moacir. Manaus: ruas, fachadas e varandasManaus: Gráfica de Gracimoema Sampaio, Humberto Calderaro, 1985.

www.barquillerosdemadrid.es

Jornal Em Tempo, 23/09/2012

blogtina.blogspot.com

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Lugares Pitorescos de Manaus II


O espaço urbano, ao longo do tempo, não sofre mudanças apenas em sua fisionomia, no espaço construído, mas na relação que a sociedade mantêm com o meio. Nomenclaturas de origem popular, secularmente utilizadas como referência para praças, ruas, becos e formações geográficas, herança medieval longínqua, sucumbem às mudanças das ‘oficializações’, às integrações a outros bairros e ao esquecimento, subsistindo em alguns momentos na pena do jornalista ou do cronista de época. Nessa segunda parte do texto serão abordados os seguintes lugares: Costa D’ África, Beco do Rego da Maria Pia, Cidade das Palhas, Buraco do Pinto, Canto do Quintela, Bairro Preguiça, Bairro dos Bilhares e Curva da Morte.

Negros libertos fotografados em Manaus durante a Expedição Thayer (1865-1866), liderada por Louis e Elizabeth Agassiz.

Costa D’ África: A Costa D' África foi uma região existente em Manaus na época da província, com referências desde a década de 1860. Essa área, considerada um bairro na época, era habitada por africanos livres. Em 1866, Gustavo Ramos Ferreira, vice-presidente da Província do Amazonas, registrava que existiam no Amazonas cerca de "57 africanos livres, já de posse de suas respectivas cartas de emancipação" (SAMPAIO, 2005, p. 2). Os moradores desse bairro, já livres, conseguiram integrar-se, em parte, na sociedade da época, ocupando cargos públicos, militares e servindo de mão de obra em construções na capital. A Costa D' África estava localizada em terras ao Norte do antigo Cemitério de São José (área do Atlético Rio Negro Clube, em frente à Praça da Saudade), entre as ruas Leonardo Malcher e Luiz Antony. Os registros mais significativos desses africanos de Manaus foram feitos em uma casa da Estrada de Epaminondas durante a expedição de Louis e Elizabeth Agassiz e reproduzidas na obra Viagem ao Brasil (1865-66).

Passagem que leva ao Beco da Escola, atrás da E. E. Cônego Azevedo. Foto de 2014.

Beco do Rego da Maria Pia: De origem popular, o antigo Beco do Rego da Maria Pia está localizado no bairro de Aparecida, começando na rua Xavier de Mendonça e passando por trás da Escola Estadual Cônego Azevedo. Nesse beco, há décadas, morou uma avantajada senhora portuguesa de nome Maria Pia, que todos os dias, pela manhã, tinha o hábito de jogar os detritos de seu penico pela janela de casa. Adiciona-se o fato de que os detritos caiam em sua pequena horta, sendo que o que nela era plantado (frutas, legumes e verduras) era posteriormente vendido na feira do bairro. Esse beco também era chamado de Tapa-Guela e beco do Pai da Vida. O beco já não recebe mais essas nomenclaturas populares, sendo conhecido apenas como Beco da Escola.

Cidade das Palhas, atual bairro da Alvorada. Foto de 1974.

Cidade das Palhas: No início dos anos 1960, o Dr. Cezar Najar Fernandes, engenheiro agrônomo peruano, indignado com a situação dos moradores da Cidade Flutuante, grande favela fluvial existente desde a década de 1920, decidiu, junto de alguns amigos, criar um bairro em terras próximas do Estádio Vivaldo Lima, o qual ajudou a construir. Foram abertos caminhos, foi feita a topografia, o arruamento e a divisão dos lotes. Essas famílias que saíram da Cidade Flutuante começaram a construir casas de madeira e palha nesse local, que ficou conhecido como Cidade das Palhas.

Rua Ramos Ferreira, uma das vias que no passado formava o Buraco do Pinto. Foto de 2015.

Buraco do Pinto: O Buraco do Pinto foi uma depressão existente entre a rua Ramos Ferreira e as avenidas Joaquim Nabuco e Major Gabriel. Por essa depressão passavam os igarapés do Aterro e de Manaus. Por décadas essa região foi palco de acidentes de trânsito e de reclamação dos moradores do Centro, pois além de ser perigosa para o tráfego, servia de lixeira a céu aberto. Sobre a nomenclatura, diz o folclorista e historiador Mário Ypiranga Monteiro, existem duas versões sobre sua origem. A primeira, fantasiosa, seria a de que, em um dia de chuva, uma pessoa teria encontrado nessa depressão um pinto. A segunda seria a de que o nome teria origem em um taverneiro chamado Pinto, morador da Joaquim Nabuco. A nomenclatura, no entanto, ainda de acordo com Mário Ypiranga, teria por nome oficial Capitão Manuel Tomás Pinto Ribeiro, segundo Escriturário do Tesouro Estadual falecido em 02/06/1917. Coube à população dar o nome de ‘Buraco do Pinto’. A área sofreu um primeiro aterro em 1944, na administração municipal de Francisco do Couto Vale. Em 1957, na administração do governador Plínio Ramos Coelho, o Buraco do Pinto foi definitivamente aterrado e asfaltado.

Cruzamento das Avenidas Sete de Setembro e Joaquim Nabuco. Foto de 2017.

Canto do Quintela: O Canto do Quintela compreende o cruzamento das avenidas Sete de Setembro e Joaquim Nabuco, onde funcionou o primeiro supermercado CO (Casas do Óleo), da família Assayag. Bem antes de funcionar esse empreendimento, existiu nesse local a Mercearia Quintela, de proprietário português, que deu origem à nomenclatura popular. A referência mais antiga sobre essa mercearia data de 1906, através de um anúncio publicado no 'Almanaque Brinde Palais Royal (1906, p. 130), no qual lê-se o seguinte:

"Mercearia Quintella, de Quintella & Irmão - N' esta bem acreditada casa encontra-se sempre um repleto sortimento de todos os generos alimenticios quer nacionaes ou estrangeiros. Tem sempre em deposito grande sortimento de louças de barro como taes: FILTROS, TALHAS, POTES, BILHAS, vasos para plantas, etc. Variado e grande sortimento de louças finas de porcellana, pó de pedra, granito, como sejam: PRATOS, CHICARAS, TIGELLAS, etc. Especialidade em COPOS DE CHRYSTAL, VIDRO e CANDIEIROS DIVERSOS. Preços sem competência. Rua Municipal, 94 – Manáos".

Em notícia publicada no Jornal do Comércio, em 04/09/1917, dizia-se que “A rua Municipal, canto da mercearia Quintela, descia o bond numero oito, linha deavenida-circular1. Em outra notícia, de 25/01/1930, escrevia-se que “Por futil motivo Antonio Souza aggrediu hontem, ás dezenove horas, no canto do Quintela, a Manoel Sebastião da Silva”2. No Canto do Quintela viveu a violinista Ária Paraense Ramos, morta aos 19 anos em 17 de fevereiro de 1915 em um acidente no Ideal Clube.

Bairro do Preguiça: O bairro do/da Preguiça estava localizado entre as ruas Pico das Águas, Maceió e João Alfredo. A primeira versão de sua origem popular, diz Mário Ypiranga, é muito simples: em um afluente do Igarapé da Cachoeira Grande, passando pela parte de trás do Parque Amazonense, encontraram uma preguiça. O historiador, no entanto, após pesquisas, encontrou referências de que naquele local residiu um morador de nome José dos Santos Preguiça, operário pintor, tirador de goteiras e consertador de pontes, com referências de seus serviços desde 1899. Em 28 de julho de 1917, os moradores daquele bairro fizeram um abaixo-assinado pedindo que o nome fosse mudado para Nery da Fonseca3.

Atual Paróquia do bairro de São Geraldo. Foto de 2014.

Bairro dos Bilhares: O Bairro dos Bilhares corresponde ao atual bairro de São Geraldo, na zona Centro-Sul. O nome Bilhares fazia referência à Casa Bilhares, bar e casa de jogos propriedade do desembargador Floresta Bastos. O acesso se dava pelos bondes da Companhia de Transportes Villa Brandão (1893), que fazia a rota entre o Mercado Público e a Cachoeira Grande, no início do que viria a ser o bairro de São Jorge. O nome do bairro foi alterado para São Geraldo em 1950, por ação dos Padres Redentoristas. Em uma nota publicada no Jornal do Comércio em 07/10/1950 lê-se o seguinte: “Terá início, hoje, no bairro de São Geraldo, antigo Bilhares, a quermesse promovida pelos Padres Redentoristas, cujo produto reverterá em favor das obras da construção da capela”4. A Capela do Preciosíssimo Sangue foi inaugurada em 1953. Apesar da mudança, o nome Bilhares continuou sendo utilizado por um bom tempo como referência para aquele local, como atestam notícias até a década de 1980.

Avenida Castelo Branco com rua Ipixuna. Ano não identificado.

Curva da Morte: Existem menções à Curva da Morte pelo menos desde a década de 1950, sendo um indício de que os acidentes que popularizaram aquela parte do bairro da Cachoeirinha eram de longa data. O anúncio de uma peça teatral de 1959 informa que o espetáculo estava “situado na Av. Waupés, junto da Curva da Morte, bairro de Cachoeirinha, sob a direção de Walter Freitas”5. A Curva da Morte compreende o cruzamento da Av. Castelo Branco (antiga Waupés) e da rua Ipixuna. Por um bom tempo o bairro permaneceu sem pavimentação e entrecortado por igarapés, o que fazia os motoristas que vinham pela Castelo Branco, para evitar a Silves, ter que dobrar na Ipixuna, rua fechada e de difícil tráfego. Nesse cruzamento ocorreram graves acidentes com vítimas fatais entre as décadas de 1960, 1970 e 1980. Algumas eram vitimadas na frente de suas casas, tentando atravessar para a outra parte da via6. O número de mortos por acidentes de tráfego entre 1965 e a metade do ano de 1966 era de 67 pessoas7.

São vários os lugares pitorescos, de nomenclaturas curiosas, esquecidos ou não, que marcaram a população da cidade, que utilizava outras formas, um aspecto geográfico, um comércio, um morador ilustre, para se localizar no espaço e no tempo. Outros vão surgindo ao longo dos anos, como referência para ruas, becos, avenidas, praças e inúmeras invasões irregulares pela área urbana, que aos poucos tornam-se bairros. Daria para escrever um livro denso explicando as origens de cada um. São elementos de outras épocas, de outras mentalidades, de um cotidiano marcado por um ritmo mais lento de relações entre o homem e o meio.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

SAMPAIO, Patrícia Melo. Escravidão e Liberdade na Amazônia: notas de pesquisa sobre o mundo do trabalho indígena e africano. 3° Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional, 2005.

MONTEIRO, Mário Ypiranga. Roteiro Histórico de Manaus. Manaus, Editora da Universidade do Amazonas, 1998.

BESSA, Roberto. Memorial Aparecida: síntese da história de um bairro. Manaus, Edições Muiraquitã, 2010.

ALLAN, Virgínia. São Geraldo – Uma História em duas conjugações: Passado e Presente. Manaus, Edições Muiraquitã, 2008.

FONTES:

Jornal do Comércio, 04/09/1917
Jornal do Comércio, 25/01/1930
Jornal A Capital, 28/07/1917
Jornal do Comércio, 07/10/1950
Almanaque Brinde Palais Royal, 1906

NOTAS:

1 Jornal do Comércio, 04/09/1917
2 Jornal do Comércio, 25/01/1930
3 Jornal A Capital, 28/07/1917
4 Jornal do Comércio, 07/10/1950
5 Jornal do Comércio, 19/12/1959
6 Maria Rejane Rocha, aos 13 anos, morreu ao ser atropelada pelo chofer Walmir Gonçalves Barros na frente de sua casa, na rua Ipixuna, n° 1081, enquanto tentava atravessar a via. Jornal do Comércio, 26/06/1972.
7 Mortos por acidentes de tráfego, 1966. A. Raposo & Cia.


CRÉDITO DAS IMAGENS:

Viagem ao Brasil (1865-1866)
Google Maps, 2014
Coronel Roberto Mendonça
Otoni Moreira Mesquita, 2015, 2017

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Manaus: Pequena Coletânea de Histórias e Estórias



Reúno, nesse texto, quatro histórias ou estórias de Manaus, algumas ocorridas em períodos incertos e outras entre as décadas de 1960 e 1980. São elas: São Lázaro aparece ao assassino de cachorros; A velha que virava porca; O morto-vivo do Morro da Liberdade; e O Diabo na casa de dança do São Francisco. Ambas tem fortes laços com o catolicismo popular, através da aparição de santos, da realização de orações e milagres, e do medo de seres sobrenaturais. Com exceção do caso do morto-vivo do Morro da Liberdade, amplamente divulgado nos jornais da época, e também o melhor trabalhado, todos os outros foram recuperados através da oralidade.


I: São Lázaro aparece ao assassino de cachorros

Poucos sabem que, no local onde hoje está localizado o Grêmio Recreativo da Escola de Samba Mocidade Independente de Aparecida, em bairro homônimo, na Avenida Ramos Ferreira, funcionou até 1950 um forno de incineração de lixo. Ele era uma grande estrutura construída em 1913 na administração do prefeito Jorge de Moraes. Mas não nos interessa aqui a história dessa construção, mas sim uma estória antiga, de origem imprecisa, relacionada ao local, transmitida por Moacir Andrade (1927-2016) à pesquisadora e jornalista Elza Souza (65).

Diariamente os funcionários do forno de incineração recolhiam o lixo para ser eliminado. Em carros coletores ou carroças, o trabalho era realizado nas principais ruas da área central da capital. Crescia a necessidade da limpeza e da higiene pública.

Um desses funcionários, de nome não identificado, levou ao pé da letra a questão da limpeza e da higiene: Além de recolher o lixo, também recolhia cachorros de rua. Chegando no forno do bairro de Aparecida, possivelmente ainda dos Tocos, eliminava, de forma sádica, os animais nas chamas. Repetiu esse processo inúmeras vezes, sem ser, no entanto, repreendido por suas ações.

Em mais um dia de eliminação do lixo e dos animais, contam que São Lázaro, padroeiro dos pobres e protetor dos cachorros, apareceu diante desse funcionário, que desde esse acontecimento se arrependeu e parou de matar os animais. O forno foi desativado em 1950, sendo incerto o destino desse personagem.


II: A velha que virava porca

Uma das estórias mais conhecidas na cidade de Manaus, talvez com origem na região Nordeste, com registro nos estados do Maranhão, Ceará e Piauí, é a da velha que virava porca. O relato a seguir é de uma senhora de 66 anos, que afirma ter sido atacada pela mulher já transformada no animal: 

“Isso aconteceu quando eu tinha 15, 16 anos… morava na Comunidade do Barro Vermelho, hoje bairro de São Lázaro. Todo dia, de manhã e de tarde, na rua 09 de Maio, uma senhora bastante idosa, de baixa estatura, perambulava de um canto para o outro. Quando ela passava, as pessoas diziam: “Lá vai a velha que vira porca”. Quando meu pai via, dizia bem baixinho: olha a velha que vira porca”. Todos tinham medo dela. 

Um dia, já pela parte da noite, a velha passou em direção a uma poça de lama que existia no final da rua. Eu estava na porta de casa com uma amiga, quando começamos a ouvir, vindo de longe, um barulho forte de casco de animal batendo na terra. De repente, vimos uma porca muito grande, de cor preta, vindo em nossa direção. Ela saiu correndo atrás da gente, correndo, correndo... Pulamos o portão da casa e a trancamos. Mas a porca passou direto e sumiu na noite. No outro dia, a senhora passou em direção ao mesmo lugar (a poça de lama) como se nada tivesse acontecido... 

Continuamos vendo a velha, mas, com o passar dos anos, ela passou a aparecer cada vez menos, até que um dia desapareceu..." 

(Relato concedido a Fábio Augusto de C. Pedrosa em 02/05/2017) 

Assim como em outros estados, estando aí incluído o Pará, a “velha” se transformava na madrugada de quinta para sexta-feira. Dentro da tradição católica, as pessoas fazem orações como o Pai Nosso e Ave Maria para pedir proteção pessoal e para terceiros. A mulher que virava porca, no entanto, fazia essas orações ao contrário para pedir a infelicidade, o mal estar e até mesmo a destruição de outra (s) pessoa (s). Como consequência, contam os mais velhos, acabava, por forças ocultas associadas ao Diabo, se transformando no suíno, animal de casco fendido abominável na Bíblia (Deuteronômio 14).


III: O morto-vivo do Morro da Liberdade

Houve um tempo em que as pessoas tinham medo dos mortos, tempo esse em que a religião e o sobrenatural tinham maior relevância no cotidiano. Hoje, a abordagem de um vivo, um tudo bem ou um bom dia, causa certo espanto, dada a constante insegurança que nos ronda. O caso a seguir ocorreu no bairro Morro da Liberdade, na zona Sul de Manaus, em 1980. Acredito que a maioria dos leitores não o conhece, pois foi algo local, mas os elementos que nele estão inseridos, revelando parte da mentalidade de uma sociedade de determinada época, o torna digno de nota. 

Era sexta-feira, 08 de agosto de 1980. No Cemitério de São Francisco, no Morro da Liberdade, às 9:00 da manhã, um mausoléu começou a tremer, causando espanto nos presentes do local. No bairro e adjacências, espalhou-se o boato de que um homem tinha ressuscitado. Nesse mesmo dia, o Jornal do Comércio noticiava que cerca de 5 mil pessoas lotaram o Cemitério para ver esse "morto-vivo", sendo necessário o deslocamento de guarnições do Choque da Polícia Militar para conter a multidão. 

Nesse mausoléu, de n° 4642, localizado na quadra 10, estava enterrado Itamar Aristides da Silva, vítima de um atropelamento em 19 de junho de 1976. Tinha 36 anos quando do ocorrido. Sua esposa, Maria José da Silva, sabendo dessas manifestações na sepultura do marido, solicitou que um padre do bairro São Lázaro, possivelmente o Padre Bernardino Micce, rezasse uma missa no local. A presença do padre apenas fez aumentar o furor dos que observavam atentos qualquer movimento da sepultura. 

Alguns achavam que esse era um aviso divino. Outros, um tatu dos grandes a fazer seus buracos. O mais estranho foi o momento em que o padre terminou a missa, saindo de cabeça baixa e sem falar qualquer palavra. Até a noite, segundo consta no Jornal do Comércio, pelo menos mais 20 pessoas viram a sepultura se mexer. 

Milton Tavares da Silva, morador da rua Amazonas, no bairro onde ocorreu esse evento "sobrenatural", foi coveiro no São Francisco por 10 anos. Em entrevista ao Jornal, afirmou que aquela foi a primeira vez em décadas que se sentiu assombrado, pois foi uma das pessoas que viu a sepultura tremer. 

No dia 10 de agosto de 1980, o Jornal do Comércio noticiava que "continuava a romaria ao Cemitério de São Francisco", onde várias pessoas começavam a pedir graças ao túmulo, afirmando ser aquele evento um milagre. 

Ao que tudo indica, para o administrador do campo santo, José Maria da Silva, a COSAMA estava realizando obras perto do Cemitério, o que pode ter ocasionado o tremor nessa sepultura, não tendo o evento qualquer relação com o plano sobrenatural. Causos de outras épocas, quando o sobrenatural espantava mais que o terreno... 

FONTES: 

Jornal do Comércio, 09/08/1980
Jornal do Comércio, 10/08/1980
História da Paróquia São Lázaro (1956-1991) - Documento recuperado.


IV: O Diabo na casa de dança do São Francisco

A estória abaixo foi recuperada por meu amigo Maurício Castelo Branco, dono do blog São Francisco Bairro, no qual interage e divulga informações variadas com a população desse bairro da capital.

Em meados de 1985 existia uma casa de festas chamada Telhadão, que era localizada na Praça de São Francisco, por trás de onde hoje funciona uma loja de materiais de construção. Segundo relatos, na época, pessoas do Cafundó, Morro, Mossoró, Vila Mamão, gente de todos os cantos do bairro se reunia nos fins de semana no local para a diversão ao som de músicas eletrônicas, flashback, house e outros gêneros. 

Em decorrência disso o ápice do sucesso do lançamento de Thriller, de Michael Jackson, não parava de tocar em qualquer casa de festas em Manaus. Bem como dizia, no Telhadão não era diferente, mas, em uma noite de fim de semana, uma aparição de uma criatura/demônio/capeta/etc/ se deu justamente no decorrer da dita música. 

O monstro tinha o rosto semelhante ao de um dragão, com olhos vermelhos, nariz com focinho de cachorro, alguns furos perto da boca e com um par de chifres na altura da testa. A estatura juntamente com o corpo era de um homem, mas as mãos e pés eram iguais as patas de um boi. No momento da aparição, a correria foi intensa dentro do local, as pessoas desesperadas se entupiram na saída que era apenas uma porta pequena. Alguns gritavam por socorro. Enquanto isso a criatura permanecia parada, mas durante um tempo teve muita fumaça ao seu redor, ficou quase impossível de enxergá-la. No fim da confusão ninguém conseguiu explicar o que houve, alguns dizem que o boato foi para prejudicar o evento, outros dizem que o que aconteceu foi real.


CRÉDITO DAS IMAGENS:

Encyclopédie du Paranormal
Jornal do Comércio, 09/08/1980
www.wjhirten.com

domingo, 1 de outubro de 2017

A Cozinha Amazonense

Quem já teve a oportunidade de experimentar os pratos da cozinha amazonense, seja em Manaus ou em outro município do estado, sabe como seus sabores ficam marcados na memória gustativa. O ácido, o doce de frutas únicas, o gosto incomparável de carnes de caça, de peixes e quelônios diversos, motivos de grande celebração, os caldos, ervas e outros temperos, acompanhados de farinhas torradas e saborosas, são apenas alguns dos exemplos que formam essa que é sem dúvida uma das cozinhas mais variadas e exóticas do Brasil, quiçá do mundo. Reproduzo, abaixo, os escritos de Luiz de Miranda Corrêa sobre a culinária amazonense publicados no livro Roteiro Histórico e Sentimental da Cidade do Rio Negro (1969), interessante guia histórico e turístico da época da Zona Franca.

Banca de tambaqui no Mercado Adolpho Lisboa, em Manaus. Foto de 1968.

A cozinha amazonense é das mais ricas, e sem dúvida, a mais exótica do país. Basicamente indígena, recebeu grande contribuição portuguesa, e já nos dias da borracha, foi enriquecida por certos elementos africanos trazidos pelos imigrantes oriundos do Pará, Maranhão e Ceará.

Inicialmente é necessário que falemos nos peixes do Amazonas. A variedade é tão grande - peixes de pele, de escamas ou de casca - que o amazonense selecionou um pequeno número para seu uso. Deles o mais famoso é o pirarucu, espécie de bacalhau da água doce, que se come fresco ou seco, de mil e uma maneiras. Filé de pirarucu fresco é um pitéu excelente, mas o pirarucu seco preparado na brasa, chamado "do céu" ou "de casaca", não lhe fica nada atrás. O mais nobre entre todos os peixes é, talvez, o tucunaré, que se pode encontrar em dimensões gigantescas, quase do mesmo tamanho dos pirarucus. A melhor maneira de se preparar um tucunaré é separá-lo em postas e cozinhá-lo, ou então de forno, recheado de ervas exóticas e farinha suruí. Entre os peixes de grande porte, destaca-se também, o tambaqui. Espécime deliciosamente gordo, com poucas espinhas faz os encantos dos gourmets amazonenses, especialmente em caldeiradas ou moqueado, que é uma maneira de churrascar o peixe. A pescada é um peixe fino e fica muito bem em caldeiradas, preparadas com requinte, parecendo sopa à Leão Veloso. Já o jaraqui é peixe popular, de grande aceitação pelo paladar esquisito, apesar do grande número de espinhas. O curimatã, outro peixe popular, é mais saboroso e o mais indicado para a moqueação. Para quem gosta de peixe frito, os dois melhores são o pacu e a sardinha, esta última trazida pelos conquistadores portugueses. E o nativo de paladar mais exigente delicia-se com o bodó, peixe cascudo de cara feia mas de gosto estranho e apetitoso. A variedade de peixes é imensa. Quantas espécies registradas? 2.000? 3.000? Mais ou menos isso.

Farofa de tracajá, servida no casco do animal.

O prato mais amazonense entre todos é a tartaruga. Hoje em dia, com a pesca sob controle do Governo Federal, atinge preços astronômicos e, em Manaus, é sinônimo de festa nacional. O cuidado do Governo, entretanto, é fácil de justificar e mesmo de louvar. Comiam-se os ovos (um paladar requintado jamais esquecerá o sabor do ovo de tartaruga, comido cru, com farinha d' água), usavam-se as tartarugas pequenas para decoração em aquários ou souvenirs para turistas, e comiam-se as grandes, em tal quantidade, que a espécie estava ameaçada de extinção.

Como pescar uma tartaruga? Como prepará-la?

A pesca da tartaruga é conhecida como viração. Aguarda-se a vazante dos rios, quando se formam belíssimas praias onde os quelônios vem desovar. Então os índios e os caboclos ficam na espreita, e após a desova correm atrás das tartarugas virando-as de casco para baixo. Pescou-se, então, a tartaruga e, dependendo do tamanho do animal, um ou mais homens carregam-na, para a canoa. O destino final é o curral onde são guardadas, em grande quantidade, para a venda paulatina.

O preço de mercado é caro. Mas uma tartaruga de bom tamanho pode alimentar mais de 40 pessoas. Dela se fazem vários pratos diferentes. O sarapatel, o pachicá, o filé (às vezes ao tucupi), o picadinho e o guizado. O picadinho, por exemplo, é servido no peito e é o prato de mais fácil aceitação pelos não iniciados. O picadinho e o filé. E mixira de tartaruga é alimento de guardar por muito tempo.

Ir ao mercado, em Manaus, é mais do que uma obrigação doméstica, é, pode-se dizer, uma festa. [...] Na parte reservada a mercadorias diversas, bem na ala central do prédio, nas várias divisões, pode-se encontrar legumes e verduras, desde os tomates e as couves até o exótico jambu, tão necessário ao tacacá e ao pato no tucupi. Frutas, variando das laranjas, melancias e melões, às bananas gigantescas e aos tucumãs, umaris, sorvas, pupunhas, taperabás, graviolas, abacaxis e ananases, doces de fazer inveja aos seus parentes do Havaí. Existem também as barracas das farinhas, variando das secas, como a suruí, à farinha d' água, à farinha do uarini, cor de gema de ovo, tão certinha que parece feita à máquina. Encontra-se, também a farinha de tapioca, excelente para bolos, mingaus e pudins, empregada nas casas tradicionais da cidade para fazer "bolos podres" e "tapioquinhas de coco".

Uma feirante de Manaus exibindo a variedade de frutas da região

Outros pratos amazonenses tem características mais amazônicas e são saboreados de Belém do Pará ao Acre. Entre eles o pato ao tucupi e o tacacá. O tucupi é um caldo extraído da mandioca e seu paladar lembra ligeiramente o curry indiano. Usa-se como caldo no pato assado, misturado ao jambu, legume exótico que faz a língua tremer, levemente afrodisíaco. Pode-se usar também o tucupi como molho para caças e pescados e, como já dissemos acima, para a tartaruga.

O tacacá também é feito na base do tucupi. Servido em cuias pretas e muito quente, lembra uma sopa em que o tucupi é misturado à goma, preparada com polvilho. A essa mistura junta-se o jambu e o camarão seco do Maranhão. Está pronta a beberagem que se degusta ao cair da tarde nas esquinas de Manaus.

Peixe, tartaruga e comidas preparadas na base do tucupi são os ingredientes básicos da comida amazonense, uma das mais deliciosas e exóticas do país.

CORRÊA, Luiz de Miranda. Roteiro Histórico e Sentimental da Cidade do Rio Negro. Manaus, Artenova, 1969, p. 85/95, 97.


CRÉDITO DAS IMAGENS:

Tibor Jablonsky e Orlando Valverde, 1968. Biblioteca do IBGE
Heard Country Parks & Recreation
Acervo A Crítica